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Opinião

A magia esquecida

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Quando somos crianças, temos uma sede impressionante por crescer. Sei que tive essa fase e, hoje, adulto, me pergunto o porquê. Não sei se é só a ilusão de que adultos podem fazer tudo o que quiserem ou se há algo a mais. Às vezes, tenho a impressão de que a criança vê o adulto como um ser invencível, forte, capaz de tudo, enquanto ela se acha frágil, pequena e, muitas vezes, incapaz até de amarrar o próprio sapato. Depois que me tornei adulto, nem lembro exatamente o dia, mas cada vez mais o desejo de voltar no tempo me acompanha. E não tem a ver com ter menos responsabilidades ou boletos para pagar, tem a ver com a magia, esse grande poder que as crianças têm e do qual nem se dão conta.

Existem marcadores científicos para determinar quando deixamos a infância e entramos na adolescência e, depois, na vida adulta. Mas, sinceramente, na minha cabeça faz mais sentido pensar que a vida adulta começa quando percebemos que o mundo não é exatamente como imaginávamos. É quando toda aquela magia começa a ir embora. Não acontece de uma hora para outra. Não é porque completei 18 ou 21 anos que isso aconteceu. Não é um passe de mágica, é justamente a falta dela e ela vai nos deixando aos poucos, conforme paramos de acreditar. E não me refiro a Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente e tantos outros personagens que fazem parte do mundo encantado da infância, refiro-me à vida como um todo. A rotina nos engole de tal forma que nem percebemos que estamos vivendo para trabalhar e pagar contas, e não que estamos, de fato, vivos. Alguns acontecimentos até nos lembram disso, como uma perda, um acidente ou a falta de tempo para cuidarmos de nós mesmos, mas logo a rotina volta e toma conta novamente.

Quando éramos crianças, acreditávamos em coisas que não precisavam de explicação. Acreditávamos e esperávamos ansiosamente pelo Coelho da Páscoa, pelo Papai Noel, pela Fada do Dente, simplesmente porque um adulto em quem confiávamos nos dizia que era assim. Aqui não entro nos méritos de mentir para uma criança e alimentar uma crença infundada nesses personagens basicamente por dois motivos: primeiro, não é esse o ponto e, segundo, a questão aqui não são os personagens, mas a magia e tudo o que ela representa para uma criança. Bem, dito isso, seguimos o raciocínio. Essa magia, apesar de as crianças acharem que precisam ser adultas para fazer o que quiserem, é justamente o que permite que elas façam tudo o que querem, que exercitem a imaginação. E é essa capacidade que perdemos, a de imaginar, sonhar e de enxergar o mundo com os olhos de uma criança.

No fim do dia, cansados e só querendo dormir, não lembramos nem de sonhar. Enquanto as crianças, recebem a visita do Sandman, o Homem de Areia, que chega para conduzi-las ao mundo dos bons sonhos, para um lugar onde tudo pode acontecer, nós somos convidados à inércia e acordamos vazios. Uma criança acorda cheia de energia, cheia de magia, cheia de planos mirabolantes. E nós? O suficiente para tentar sobreviver a mais um dia.

Penso que uma das coisas mais bonitas da infância é a capacidade que a criança tem de olhar para o mundo e enxergar nele coisas que nós, adultos, já não conseguimos mais e não por falta de óculos, justamente por não terem a necessidade de compreender o mundo em sua totalidade.

Se pegarmos uma caixa de papelão, por exemplo, para nós, adultos, aquilo não passa de uma caixa de papelão. No máximo, encontramos para ela a serventia de guardar alguma coisa. A criança, não, ela consegue enxergar um mundo de possibilidades naquele objeto. Neste fim de semana mesmo, meu filho de 4 anos montou um restaurante em casa e tudo o que vocês puderem imaginar e, até o que não puderem, ele usou como mesas. Em cada uma, colocou um bichinho de pelúcia em frente ao outro e dizia que “os namolados vieram ao meu restaulante”.

Pausa rápida para a fofoca do momento: a Galinha Pintadinha se separou do Galo Carijó e está namorando com ninguém mais, ninguém menos que o Mestre Yoda. E eles foram vistos juntos no restaurante do Miguel neste último domingo.

E, nesse restaurante, a combinação de pratos e sabores era de dar inveja em qualquer grande chef dos mais renomados restaurantes do mundo.

A criança ainda não aprendeu que certas coisas são impossíveis e é justamente por isso que encontra possibilidades onde nós, adultos, já desistimos de procurar. E ele me lançou mais um desafio, que é criar uma nova história infantil em que os personagens são um jacaré, um canguru grande, um canguru pequeno e uma águia. Vou precisar de uma aula de imaginação com ele para fazer esses personagens fluírem.

Crescemos e deixamos tantas coisas para trás, inclusive uma parte importante de nós. A realidade que se apresenta, às vezes é mais dura do que gostaríamos. Perdemos pessoas, descobrimos que nem todo mundo cumpre o que promete e que algumas histórias não terminam como gostaríamos. E acho que é justamente nesse ponto que a magia se esvai e os pesadelos tomam conta de nós. E nem falo daqueles que acontecem quando dormimos, até porque, às vezes, nem para esses temos tempo. Falo daqueles que nos acompanham acordados, nossas preocupações, a pressa, o medo, o cansaço e aquela voz que fica na nossa cabeça perguntando se estamos dando conta de tudo e nos fazendo acreditar que não. E então, aos poucos, vamos desacreditando das pessoas, da magia, até que passamos a desacreditar de nós mesmos.

Quem já assistiu ao filme “A Origem dos Guardiões” sabe que a história é, basicamente, sobre como a crença das crianças é luz para o mundo. Quando elas passam a desacreditar, os Guardiões, como os personagens já citados, perdem força e o mundo vai ficando escuro. Não precisamos levar isso ao pé da letra e voltar a acreditar no bom velhinho, no coelho que traz chocolates ou em uma fada que deixa moedas embaixo do travesseiro. Já seria suficiente olhar para uma caixa de papelão e enxergar algo além de uma caixa de papelão.

Se pudermos nos olhar no espelho para além do espelho, talvez percebamos o quanto de luz já perdemos por deixar de acreditar em algo bom. Por isso, as crianças têm tanto poder sobre nós, apesar de elas e, muitas vezes, até nós, acharmos que é o contrário. É porque elas nos lembram de tudo o que esquecemos.

Enquanto olhamos para a chuva e pensamos que a roupa não vai secar, que o trânsito não vai fluir, entre tantos outros pontos negativos, uma criança vai olhar para aquele cenário e até pode pensar que não dá para brincar. Mas, em segundos, transforma a chuva em inúmeras possibilidades de infinitas brincadeiras. Enquanto, ao ler uma história, nós a enxergamos como algo sem pé nem cabeça e nosso raciocínio lógico tem calafrios com certas “loucuras”, a criança simplesmente entra naquela história, mostra uma lógica nova e quase nos convence de que aquilo é real.

A vida adulta não precisa ser um breu total. Podemos deixar os personagens de lado sem abandonar a magia que eles trazem. Amadurecer não é só virar adulto, trabalhar, se sustentar e ter uma família. O verdadeiro amadurecimento é encontrar o equilíbrio, aprender a conviver com a realidade sem permitir que ela nos convença de que só existe aquilo que pode ser explicado e que a magia não tem lugar no mundo.

As crianças nos veem como super-heróis, como seus guardiões, mas a realidade é que elas são esses guardiões. Os pequenos grandes guardiões da magia da vida. São elas que nos protegem do Breu que, volta e meia, deixamos ocupar nossos dias. Precisamos aprender com elas a enxergar com os olhos delas, sem precisar, necessariamente, voltar no tempo. Precisamos lembrar de sonhar para não acordarmos vazios, mesmo sabendo que os pesadelos existem e, quando isso finalmente acontecer, podemos relaxar e, como dizem, nos entregar aos braços de Morfeu.

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