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Opinião

A guria que corria entre as araucárias

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Jenifer Kanieski
Por Jenifer Kanieski – Escritora
Foto Jenifer Kanieski

Muito antes da fronteira, do rio e de Apóstoles, muito antes de aprender a medir o tempo pelos calendários, eu o medi pelas pinhas que caíam das araucárias no mato detrás da ervateira que meu pai trabalhava. Aquela guriazinha flaquita de cabelos lisos e pretos, da pele cor de cuia que meu pai tanto cantarolava e de olhos pequenos que lembravam os de minha mãe, corria entre os campos gelados do norte do Rio Grande onde as araucárias eram tão altas que pareciam tocar o céu.

Meu velho pai ia à frente e vez ou outra reclamava do joelho que doía. Fecho os olhos e posso vê-lo usando uma camisa verde musgo, desbotada pelo trabalhar. Ele conhecia cada trilha, cada capão de mato, cada árvore antiga. E, enquanto a gente juntava os pinhões, me contava histórias sobre a patrona guarani que guardava os ervais e que ela, vez ou outra, passava através do vento no mato em que estávamos. Eu o seguia atenta e o escutava maravilhada carregando um saco que de tão grande às vezes me fazia tropeçar enquanto ouvia aquelas histórias que não estão em livro nenhum, procurando pinhões espalhados pela grama. Às vezes ainda me distraía olhando os galhos lá no alto, imaginando que tocavam as nuvens.

Eram nas frias tardes de inverno que eu aprendia que aquelas árvores tinham testemunhado muito mais do que a minha infância. Com seu andar lento e sua voz arrastada, meu pai ensinava que as araucárias já estavam ali quando os guarani caminhavam por aquelas terras, já ouviam o minuano passar por suas copas quando os povos missioneiros erguiam suas reduções. Ele dizia até mesmo que elas talvez tenham assistido o gritar de Sepé Tiaraju e o sangrar da Guerra Guaranítica. Mesmo sem compreender aquelas histórias naquele tempo, eu sentia que havia alguma coisa sagrada nas árvores como se cada tronco fosse capaz de carregar memórias que não cabiam nos livros, em verdade, cabiam apenas na voz de meu pai. Enquanto recolhíamos pinhões caídos ele me ensinava sem perceber que pertencíamos àquele lugar.

Foi ali que cheguei a uma de minhas primeiras grandes conclusões sobre o mundo: se existia um caminho para o céu, ele só podia passar pelas araucárias. Não pelas igrejas. Nem pelas estradas. Pelas araucárias. Parecia naturalmente simples para uma criança: como poderiam aquelas árvores tocar tão de perto as nuvens sem servir de ponte para quem quisesse chegar lá? Meu pai ria das minhas teorias enquanto continuava juntando pinhões e me lembrava que a noite já ia caindo e estava frio demais pra ficarmos parando para olhar pro céu.

Hoje, quando penso nele, quase sempre o encontro ali caminhando entre as araucárias, com o boné colorado protegendo as orelhas do frio, com as mãos marcadas pelo trabalho e aquela voz que não ouso esquecer. Às vezes acredito que uma parte de mim ainda corre entre as araucárias e segue atenta os passos do pai. Logo eu, que carrego um coração mais afeito às dúvidas do que às certezas, passei a mirar para as grandes árvores milenares com um desespero quase infantil de encontrar meu pai uma última vez.

Quando encontro uma araucária solita no horizonte, ainda levo os olhos pequenos até sua copa e lá em cima procuro alguma resposta: imagino que esteja conversando com o céu. E, por um instante, volto a ser aquela criança que acreditava existir uma estrada secreta entre os galhos e as nuvens. Neste descampado que virou meu peito, já chorado noutras poesias, acabo de entender algo: as araucárias não são um caminho para chegar ao meu pai. Aquele velho ervateiro do boné colorado e de camisa verde continua vivo em cada pinhão recolhido, no cheiro da erva, no frio das manhãs, no som do vento passando pelos galhos altos e, principalmente, nas lembranças de uma infância que foi mais grandiosa que qualquer acontecimento histórico que este chão já teve notícias.

Querido leitor, seria belo e poético dizer que meu pai mora no céu, mas a beleza real está em entender que o caminho até meu pai não sobe pelas copas das araucárias porque ele desce pela memória. E toda vez que volto àquela menina correndo entre os campos, toda vez que recordo as mãos ásperas recolhendo pinhões ao meu lado, toda vez que escrevo, eu chego até ele. Não é no céu, mas sim no único lugar onde a morte não arranca de nós os que amamos: na lembrança.

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