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Opinião

A vida não nos pertence, ela nos acontece

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Este fim de semana foi Dia dos Pais e foi um domingo um tanto diferente de todos os outros. Eu estava preparado para falar apenas sobre paternidade, sobre filhos, sobre o que aprendemos com eles, sobre a responsabilidade e o privilégio de ser pai. Mas a vida muda de repente, sem aviso prévio.

Durante anos, nessa data, fui apenas filho e, continuo sendo, então esse era o significado do Dia dos Pais para mim. Até que, em 2021, com meus meninos ainda na barriga da mamãe, a data ganhou outra dimensão e, de filho, passei a ser pai. Naquele domingo, me senti invencível, o cara mais poderoso deste mundo. No ano seguinte, comemorei com Miguel nos braços e Gael no coração. Não foi tão fácil e, mesmo assim, foi mágico.

Desde então, o Dia dos Pais passou a carregar outros significados. Meus filhos, sem dúvida, são e serão sempre os maiores presentes que a vida poderia me dar. Sigo com Miguel aqui comigo, crescendo, me abraçando, me chamando de pai e me ensinando todos os dias que ser pai é muito mais do que palavras. É atitude, exemplo, respeito, cuidado, afeto e amor.

E para sempre terei Gael, meu filho que não está nos meus braços, mas que nunca deixou de estar na minha vida. Mesmo em outro plano, permanece em cada lembrança, em cada saudade e em uma parte de mim que jamais deixará de ser dele. São dois filhos, inúmeras histórias e um amor que não cabe muito bem em palavras.

Porém, neste ano, a vida deu uma daquelas voltas malucas, trazendo um outro significado. Na última semana, minha esposa, mãe dos meus filhos, teve uma hemorragia grave e o medo tomou conta de mim. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, me vi diante da possibilidade concreta de perdê-la. E há experiências que reorganizam as coisas dentro da gente. Foi assim, no susto e sem aviso, que a vida me lembrou de tantas coisas que a correria do dia a dia havia me feito esquecer. De repente, aquilo que parecia importante deixou de ser. As pequenas irritações, as preocupações, os planos e as urgências inventadas ficaram menores diante da possibilidade de que, em algumas horas, tudo poderia ter deixado de ser como era e a vida não pede licença, nos atropela, nos deixa tontos e perdidos. Pensamos estar com tudo no seu devido lugar, até que ela nos mostra que não.

A palavra vida vem do latim vita, ligada ao verbo vivere, viver. A palavra é curta, nem parece que tudo aquilo que ela carrega cabe nessas quatro letras. É incrível, quase insano, pensar que ela é o que temos de mais cotidiano e, ao mesmo tempo, de mais extraordinário. A vida está tão presente que, na maioria das vezes, nem a percebemos. Que loucura! Seria esse um dos paradoxos do nosso existir? Precisarmos, de tempos em tempos, sermos lembrados de que estamos vivos?

Viver não é um mar de rosas e até o cansaço no fim do dia, os problemas banais e as discussões fazem parte do existir. Devemos ser gratos pela possibilidade de abrir os olhos a cada amanhecer e ter as pessoas que amamos ao nosso lado. Estar vivo é também poder continuar lidando com aquilo que a vida nos apresenta e, por isso, a paternidade sempre permeia os meus pensamentos. Ser pai é, entre tantas coisas, acompanhar outras vidas acontecendo diante da nossa. É assistir aos filhos crescerem e perceber que eles chegaram ao mundo completamente dependentes de nós, mas que, pouco a pouco, vão construindo a própria identidade. É tentar protegê-los sabendo que não poderemos fazê-lo sempre e ensiná-los a viver enquanto aprendemos, todos os dias, que não temos controle sobre quase nada. Muitas vezes nosso desejo é coloca-los em uma bolha, mas entendemos o desserviço que seria. Até gostaríamos de oferecer mais certezas aos filhos, porém temos poucas, é artigo raro, umas das coisas que a vida menos oferece. Ela oferece presença, tempo, embora nunca saibamos quanto, encontros e possibilidades. Cabe a nós aproveitarmos tudo isso, porque, de vez em quando, ela nos lembra de sua fragilidade e, então, nos damos conta do quanto desperdiçamos e do quanto fomos e somos ingratos.

Aprendi nesses últimos dias, ou melhor, relembrei, que a vida é frágil. O grande pulo do gato é que, mesmo reconhecendo essa fragilidade, não devemos ter medo de vivê-la, apenas estarmos mais atentos a ela. Me esforço todos os dias para ser o melhor pai para o meu filho. Tenho uma cobrança interna com isso que nem a minha esposa tem noção do quanto é grande e que, talvez, em muitos momentos, acaba me cegando para o que realmente importa. Então, no domingo, pensei menos no que é ser um bom pai e mais no que significa ter a oportunidade de ser pai, acompanhar meu filho, vê-lo crescer e estar aqui com ele. Pensei também na mulher com quem escolhi dividir a vida e a missão mais linda que é sermos pais do Miguel e do anjo Gael e na sorte de poder continuar caminhando ao lado dela. Ela que, por algumas horas, me fez entender que amar alguém é também conhecer o tamanho do medo de perdê-la. Minha maior gratidão e alegria é poder olhar para o lado e vê-la aqui, junto a mim e ao nosso filho, se recuperando aos poucos, mas viva. É poder abraçar meu filho pela manhã, sentir meu anjo (como diz a música) em tudo aquilo que a fé pode tocar e abraçar minha esposa para dizer, mais uma vez, o quanto os amo.

E o meu presente foi comemorar a vida, que hoje me parece ainda mais bonita, com eles e com o meu pai. Porque, mesmo adulto, é muito bom poder continuar sendo filho e ter meu pai por perto. Tenho muito orgulho, amor e gratidão por ele, por sua trajetória e vida. Não quero uma vida perfeita, até porque isso não existe. Só quero viver um dia de cada vez. Voltar, aos poucos, à nossa rotina, porém com outros olhos, com mais gratidão e mais sede de viver, afinal, a gente passa tanto tempo tentando construir uma vida que, às vezes, esquece de simplesmente vivê-la.

Obrigado, Miguel, por me fazer pai e por estar comigo no dia a dia, meu pequeno grande parceiro. Obrigado, Gael, por me fazer pai e por continuar me ensinando sobre amor, mesmo de um lugar que eu não posso alcançar. Obrigado, Patrícia, por estar aqui ao meu lado, andando de mãos dadas vida afora. Você, definitivamente, é a mulher da minha vida. Gratidão por tudo e por tanto. Obrigado, pai, por todo o amor e cuidado até os dias de hoje. Amo vocês ao infinito e além.

Depois de tudo o que vivemos nesta semana, estar juntos é tudo o que eu poderia desejar. Gratidão! Então, se eu puder dar um humilde conselho, seria: viva e preste atenção na vida! Esteja presente quando os filhos contam uma história, mesmo que pela milésima vez, abrace um pouco mais demorado e faça planos, mesmo sabendo que eles podem mudar. Diga o quanto ama enquanto ainda há tempo para dizer, olhe para quem está ao seu lado e reconheça o privilégio que é ter aquela pessoa ali. Mais uma lição aprendida com a vida e com a paternidade. A vida não nos pertence, ela nos acontece e, enquanto acontece, temos a responsabilidade e a sorte de vivê-la.

Por fim, mais do que desejar uma feliz paternidade todos os dias, desejo a cada um, uma feliz vida a cada segundo!

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