21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Expressão Plural

Um livro e um bilhete

teste
Gerson.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

O interfone tocou, numa manhã dessas, e era a simpática servidora dos Correios que, em geral, atende a nossa rua. “Parece um livro, hein, Professor?”, observou, sorrindo. “Hoje em dia a gente entrega tudo, menos cartas...” Eu lhe disse que, se a gente reparasse bem, livros são como cartas, as antigas cartas que os Correios entregavam há muito tempo, em uma galáxia distante. “Como assim?”, ela baixou o chapeuzinho azul que protege do sol. É que escritores e escritoras fazem livros que são como cartas para o mundo, para todo mundo, cartas públicas. Sorriu com os olhos: “Errado não ‘tá, Professor...”

 

Eu entrei, abri o envelope e caiu no chão um pequeno papel que estava com o livro, solto. Não era exatamente um cartão da livraria: era mais um bilhete, de formato retangular, como a oitava parte de uma folha A4. Alguém havia tido o esmero, a atenção, o cuidado – ah!, o cuidado – de escrever à mão, em belíssima caligrafia, a frase “Ler sempre será um ato de resistência!” Trata-se de uma formulação conhecida, muito usada na Internet, mas que me atingiu o peito como nunca enunciada, inteiramente inédita e autoral. E mais: dita para mim, direta e insofismavelmente! Uma folha no vento, uma mensagem na garrafa, um sortilégio no biscoito chinês, um nada, um tudo.

 

Olhei para o topo do papelzinho, no canto direito: dizia “Obrigada por apoiar uma pequena livraria.” No canto cruzado, embaixo e à esquerda, o nome da livraria. Puxei uma cadeira – tudo isso foi na cozinha – e me sentei com o bilhete à frente. O livro propriamente dito tinha ficado de lado, em um limbo, em uma segunda dimensão, ainda que ao alcance da mão, tão longe, tão perto. Em meio à crise e às incertezas de variadas ordens que acossam os proprietários/as de pequenas livrarias, em um país quase sempre inimigo do livro, da leitura, da inteligência e da cultura, alguém teve o engenho e a arte de escrever um bilhete que acompanharia o exemplar vendido, dando-se inclusive o trabalho de usar canetas de cor diferente – e é sobre isso, afinal, que eu queria falar.

 

Mais abaixo, como em um post scriptum, havia ainda um desejo de “boa leitura” acompanhado de um coração, um “emoji” desenhado. Tudo estava em azul, mas a palavra “resistência” e o coração desenhado estavam em amarelo, um amarelo-dourado. Na composição daquela pequena obra de arte, a autora/autor do bilhete havia unido resistência e coração, criando como que um alto-relevo, lembrando que é preciso não perder a ternura e fazendo com que sua mensagem tivesse o condão de ficar maior que a vida, maior que o mundo, maior que o passo de Neil Armstrong na Lua, aquele que teria sido pequeno para um homem, mas enorme para a humanidade.

 

Um gesto simples. Quantos gestos assim, mínimos e máximos, temos deixado de fazer em nosso pequeno universo? Era como se aquele bilhete, em uma segunda camada de leitura, me interpelasse, nos interpelasse. Havia sido criada uma conexão à distância, eu senti minha mão sendo tocada, apertada, não largada. Como escreveu Walt Whitman, não há nada menor e nem maior que um toque. E o livro? No momento em que escrevo este texto, não lembro que livro era. Mas lembro que lançarmos pontes pênseis e reconhecermo-nos humanos – assim como manter uma pequena livraria - serão sempre atos de resistência.

 

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas

;