Chegar ao cemitério de São Luiz, no interior de Erechim, não é uma tarefa fácil. Os cerca de cinco quilômetros de uma estrada de terra com muitos buracos, nos levam a um lugar que parece esquecido pelo tempo.
Há poucos metros de um aterro sanitário o antigo cemitério desativado oficialmente em 2004, guarda em sua história mais de 500 sepultamentos, a grande maioria de pessoas carentes, sem nome ou família. Tomado pelo mato e formado apenas por cruzes cravadas sobre as sepulturas de terra, o "cemitério dos esquecidos" não recebeu visitas neste Dia de Finados, segundo moradores próximos. Na estrada que liga ao cemitério a equipe de reportagem encontra Antônio Marcontins, 62 anos, um dos poucos vizinhos do local e morador da comunidade de São Luiz do Rio Poço há mais de 20 anos. Ele relata que o antigo cemitério está abandonado há alguns anos e que as flores deixadas em algumas cruzes foram depositadas há meses. "Nunca vem ninguém ali - se referindo ao cemitério. Hoje também não vi ninguém passar", ressalta o morador ao ser entrevistado na tarde de quarta-feira.
Conforme o administrador do Cemitério Municipal Santa Cruz, no Bairro Presidente Vargas - que passou a receber os corpos dos carentes e também indigentes - não existe um número exato de quantos corpos estão sepultadas no antigo cemitério. "Não sabemos nem quando ele foi fundado. Acredito que ele tenha mais de 50 anos", ressaltou Algemiro Nunes Soares.
Livro de registros
A reportagem encontrou um livro de registros de sepultamentos do Cemitério de São Luiz, no arquivo do Cemitério Municipal Santa Cruz em Erechim. De acordo com relatos dos coveiros mais antigos a cada sepultamento no antigo cemitério era feita uma anotação no livro de capa verde, com pouco mais de 50 páginas, 20 delas preenchidas, com nomes, datas, números das cruzes de sepultamento, nome de familiares e funerárias responsáveis pelo encaminhamento do corpo.
Apesar de encontrarmos algumas cruzes com nomes e datas, a grande maioria dos sepultados no cemitério parece ter recebido apenas um número de identificação que resiste ao tempo na cruz de concreto. O número seria o mesmo anotado no antigo livro que tem como primeiro corpo enterrado o de uma mulher de 54 anos, sepultada em 1986 e o número 576, último da lista um homem de 72 anos em 2010. O documento mostra que Cemitério de São Luiz, funcionou por 24 anos. Nas páginas do documento, um nome nos chama atenção, Miguel Chaves, o responsável por anotar no livro o nome dos sepultados no antigo campo santo. Ele foi coveiro e zelador por mais de dez anos.
O zelador
Encontramos "seu Miguel", como gosta de ser chamado, em sua casa. Aos 72 anos e aposentado ele lembra como funcionava o antigo Cemitério de São Luiz. "Cheguei lá no final de 1994, durante a primeira administração do Schmidt. Fiquei até 2004 quando o prefeito era o Zanella. Fui convidado por um amigo que precisava de um caseiro com a promessa que poderia plantar na região e cuidar do local, mas como minha casa era abaixo do cemitério, água começou a ficar contaminada. Tentamos seguir lá, mas com a criação do aterro sanitário, em 2004 e a proibição de sepultamentos direto na terra, precisei ir embora", ressalta.
Além de zelar pelo local, Miguel, conta que era dele a responsabilidade de anotar o livro verde, marcar as cruzes feitas em concreto com tinta e fechar as covas abertas com uma máquina de prefeitura. "Ás vezes passavam meses sem sepultar ninguém, às vezes era três ou cinco por mês", destaca.
Ele relata que o antigo cemitério de São Luiz, foi criado na metade da década de 80, pelo então prefeito Jaime Lago. "Cresci em Erechim e conheci esta história de perto. O prefeito iria construir lá um loteamento para abrigar as pessoas que moravam próximo aos trilhos do trem e também a córregos. Mas eles não aceitaram por que era muito longe. Como a área já havia sido comprada, a prefeitura decidiu construir lá o cemitério dos indigentes", destaca Chave.
Referente a quem era os sepultados ali, ele explica que muitos eram pessoas carentes e até mesmo indigentes, "Mas ali tinha muita pessoa de família conhecida, que escolheu o lugar por que achava o local bonito em vida. Lembro que todos os mortos vinham com as funerárias já em um caixão para ser feito apenas o sepultamento", comenta Miguel. O ex-zelador confirma que o local precisou ser fechado com o inicio das obras para aterro sanitário, mas que continuou já morando na cidade, voltando ao local para sepultar pessoas. "Faz uns seis anos que pararam mesmo. Antes continuávamos indo fazer os enterros", destaca.
Atingido por um incêndio criminoso em agosto deste ano, que destruiu parte do gramado e algumas cruzes, o Cemitério de São Luiz parece recuperado para que sua história não seja esquecida como a daqueles que foram sepultados ali.
Sepultamentos
De acordo com a Lei Municipal 2747/95 e que sofreu duas alterações em 2004 e 2010, criada pelo ex- prefeito Antônio Dexheimer, os sepultamentos nos cemitérios municipais de Erechim ocorrem apenas com autorização de familiares, que precisam apresentar um alvará de jazigos nos cemitérios municipais. Caso eles não tenham este documento, o sepultamento ocorre em uma gaveta da prefeitura municipal, que é concedida à família pelo período de cinco anos, podendo ser renovada até 20 anos. Os alvarás de jazigos são feitos junto a Secretaria da Fazenda do municipio, local que é feita também a renovação destes.
A lei não fala sobre aqueles que não têm famílias para autorização. De acordo com os administradores dos cemitérios, neste caso seria o poder público o responsável pela autorização de sepultamento.
O que diz a prefeitura
Em nota a Secretaria de Cidadania da prefeitura de Erechim, informou que com a desativação do Cemitério São Luiz, os corpos de pessoas carentes ou indigentes são levadas para o Cemitério Santa Cruz. "As famílias que buscam esse serviço têm apoio da prefeitura com o serviço de auxílio funeral, em que é dado o caixão, transporte e se a família em questão fizer parte do cadastro único, é isenta do pagamento das taxas", destaca.
Sobre o enterro de indigentes a secretaria informou que não foram feitos registros de sepultamentos recentemente. O livro do Cemitério de São Luiz, confirma a informação de acordo com o registro o último indigente sepultado no local, foi o corpo de um homem encontrado morto às margens da BR-153, em Erechim, no ano de 2008.