Receber o diagnóstico de câncer ou de uma doença grave, assim como a notícia da morte, provoca uma ruptura na trajetória de vida de pacientes e familiares. A psicóloga clínica e hospitalar Tainá Oliveira Gonçalves Winter aponta que “receber um diagnóstico de uma doença grave ou a notícia de um falecimento é um divisor de águas”.
O impacto inicial costuma ser marcado por choque, negação e sensação de desamparo. A quebra da rotina e das expectativas futuras mobiliza sentimentos como medo, tristeza, ansiedade e incerteza. Para o paciente com doença grave ou terminal, emergem preocupações intensas relacionadas ao futuro e à reorganização da própria existência.
Ao longo do tempo, surgem angústias, inseguranças e questionamentos sobre o sentido da vida, além da necessidade de adaptação à nova realidade. Cada pessoa, porém, vivencia esse processo de maneira singular, influenciada por sua história, recursos emocionais e rede de apoio.
Quando a morte se aproxima ou acontece, entram em cena os processos de luto e despedida, que podem envolver tristeza profunda, sensação de vazio e reflexões sobre vínculos e significados. “O suporte psicológico pode ajudar pacientes e familiares a compreender e elaborar sentimentos, fortalecer estratégias de enfrentamento e encontrar sentido mesmo em momentos difíceis”, explica a psicóloga Stefany Ansolin, formada pela UPF e especialista em psicologia hospitalar pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
Hospitalização prolongada e sofrimento psíquico
A permanência prolongada no hospital pode gerar impactos significativos na saúde mental, pois fatores como ambiente fechado, sons repetitivos e afastamento da luz natural contribuem para a perda da noção de tempo e rompimento com a rotina.
“Apesar da tentativa de reduzir esses impactos com as visitas de familiares e acompanhamento multiprofissional, a longa hospitalização pode causar privação sensorial e cognitiva, ruptura de papéis sociais, perda de controle e autonomia, o que causa importante sofrimento ao paciente”, explica Tainá.
Entre as reações mais comuns estão ansiedade, tristeza, medo do agravamento da doença, sensação de dependência e solidão. Crianças e idosos podem apresentar maior vulnerabilidade, inclusive com quadros de confusão mental, por isso, “nesse contexto, o manejo psicológico torna-se fundamental, auxiliando o paciente e seu núcleo familiar a conviver com a hospitalização e com o processo de cuidado de forma mais adaptada. O cuidado hospitalar, portanto, não se limita ao tratamento físico, mas inclui a atenção aos aspectos emocionais da experiência de internação”, aponta Stefany.
Estratégias como a presença da família, manutenção de vínculos e comunicação clara da equipe contribuem para minimizar o sofrimento. Ainda assim, o ambiente hospitalar também pode ser espaço de construção de laços significativos e memórias positivas durante o cuidado.
Cuidados paliativos
“Focando na dignidade, no conforto e na biografia do paciente permitindo que o mesmo expresse seus sentimentos, desejos e compreenda o fechamento de ciclos. É um processo emocional que reduz a angústia e o medo, trabalhando junto e com os familiares, que são essenciais nesse processo”, salienta Tainá.
Medo da morte, tristeza e necessidade de despedida são frequentes. Para os familiares, pode surgir o luto antecipatório, acompanhado de ambivalência emocional e insegurança.
Stefany coloca que “apesar dessas vivências desafiadoras, os cuidados paliativos também podem trazer alívio emocional, pois priorizam o controle da dor e de outros sintomas, a comunicação clara e honesta, o respeito à autonomia do paciente, o apoio psicológico, social e espiritual e o fortalecimento dos vínculos familiares”.
Mesmo quando a cura não é possível, o cuidado integral transforma um momento de vulnerabilidade em uma experiência mais humanizada.
Perda gestacional e neonatal
Para Tainá, “a atuação da psicologia em casos de perda gestacional e neonatal é uma das áreas mais delicadas e cruciais do ambiente hospitalar. A psicologia atua como tradutora do silêncio, validando a dor causada pela perda, auxiliando a compreender e simbolizar este luto, e intervindo de forma precoce para evitar que a dor se transforme em um luto complicado”.
O trabalho envolve apoio no manejo do trauma, articulação com equipes para comunicação de más notícias e respeito aos desejos da família, inclusive no momento da alta.
Esse tipo de luto ainda enfrenta invisibilidade social sendo, muitas vezes entendido como um Luto Não Autorizado, por não ser amplamente reconhecido. “Quando a sociedade ignora o vínculo existente desde a descoberta da gestação, não valida a dor e a quebra de um vínculo afetivo profundo”, pontua Tainá.
UTI Neonatal
Ter um filho internado em UTI Neonatal representa uma ruptura abrupta das expectativas construídas durante a gestação. O medo, a insegurança e a incerteza marcam a experiência, agravadas pela separação precoce e pelo ambiente hospitalar. “Estar com um filho internado em uma UTI Neonatal é como estar em uma montanha-russa emocional, enfrentando as preocupações e as angústias durante a internação e em muitas situações, um luto pela gestação interrompida”, aponta Tainá.
A vivência exige suporte constante à família, que precisa reorganizar emoções e expectativas diante da nova realidade.
Apoio psicológico e adesão ao tratamento
“Da mesma forma que o estado mental e psicológico influenciam no estado físico, a forma com que o paciente enfrenta o tratamento faz toda a diferença”, explica Tainá.
O acompanhamento psicológico auxilia na superação da negação e da raiva, fortalece a motivação e contribui para reduzir estresse e ansiedade, fatores que impactam positivamente a resposta ao tratamento. “Dessa forma, o cuidado emocional torna-se parte essencial do cuidado integral, reforçando que o tratamento não envolve apenas a dimensão física da doença, mas também os aspectos psicológicos e relacionais do adoecimento”, frisa Stefany.
O cuidado emocional após a alta
A alta hospitalar não encerra o processo emocional vivido durante o adoecimento. A readaptação à rotina, possíveis limitações físicas e memórias da internação podem exigir acompanhamento contínuo e “essa continuidade do cuidado contribui não apenas para a adesão ao tratamento, mas também para a recuperação global e a qualidade de vida, reforçando a compreensão de que o cuidado em saúde vai além da hospitalização e se estende ao retorno à vida diária”, salienta Stefany.
“A alta hospitalar é apenas uma mudança de cenário e não o fim do tratamento emocional. A psicoterapia após a alta hospitalar é muito bem-vinda para auxiliar na reorganização de vida do indivíduo”, conclui Tainá.