Cada vez mais nos deparamos com pessoas frustradas, que não sabem lidar com esse sentimento e, então, acontece uma espécie de “ressignificação” em massa das emoções e, isso é assustador. Fala-se muito em ressignificar, mas até com essa palavra é preciso cuidado. Ressignificar não é mudar o significado da palavra, não é transformar um sentimento em outro, como amor em ódio, é adaptar e trabalhar o que se sente para seguir adiante, é dar um novo sentido. Em uma relação entre marido e mulher que chega ao fim, por exemplo, trata-se de converter aquele amor romântico que um dia existiu em amizade, em uma convivência civilizada, sobretudo quando há filhos envolvidos.
O que se vê é a banalização de sentimentos, assim como de diagnósticos sérios, que passaram a ser utilizados de maneira leviana para justificar comportamentos inaceitáveis. Um sentimento nobre em sua essência, como é o caso do amor, tem servido de escudo para atitudes que nada têm de amorosas. Amor não é desculpa para violência, não é justificativa para controle, muito menos argumento para crime.
Antes de prosseguir, deixo claro que este é um espaço de opinião. Não sou psicólogo nem psiquiatra e, embora seja jornalista neste veículo, neste momento falo apenas como colunista. Trago aqui análise, percepção e posicionamento com base no que observo, estudo e acompanho. Como ser humano e pai, sinto profunda indignação diante de qualquer forma de violência, especialmente quando envolve crianças inocentes.
Falando especificamente sobre o caso do homem que matou os filhos e tentou justificar essa brutalidade com uma suposta traição, e diante de tantas asneiras que tenho ouvido, decidi expor o que penso. Quando situações como essa vêm à tona, surgem versões distintas, narrativas construídas e até vídeos questionáveis, porém, a verdade dos fatos, como realmente ocorreram, dificilmente será conhecida, por inúmeros motivos. Ainda assim, mesmo que houvesse infidelidade, nada, absolutamente nada, transforma uma traição em justificativa para assassinato. Se existiu, trata-se de um problema conjugal, portanto, conversa-se, separa-se, sofre-se, recomeça-se. Traição não é crime, é, no máximo, um erro. Matar não é erro, nem loucura momentânea. Matar é crime.
Para falar daquele relacionamento em particular, somente sendo parte dele, ou seja, isso não me cabe. O que posso dizer é que ali, se um dia houve amor, ele já tinha saído para comprar cigarros e nunca mais voltou. O que aconteceu não tem relação com amor ferido, mas com posse.
Quem ama não mata, não destrói, muito menos transforma os próprios filhos em instrumento de vingança. O que move uma atitude assim não é afeto, mas domínio, ego e incapacidade de lidar com frustração. É a mentalidade narcisista de quem enxerga pessoas como propriedade.
Há ainda um elemento recorrente e perigoso nesses casos, que é a tentativa de romantizar o agressor. Fala-se em crime passional, em surto e até em doença, afinal, é sempre mais confortável buscar uma explicação que alivie o peso moral do ato. Mas é preciso ter consciência de que nem toda brutalidade nasce de um surto, muitas vezes e, pelo que tenho observado, na maioria delas, decorre da falta de caráter, da incapacidade de enfrentar frustrações e da convicção de que perder é inaceitável. Quando alguém percebe que já não detém controle sobre o outro, vem a retaliação.
Matar os próprios filhos não é prova de amor por eles, nem pela companheira. Não é desespero, tampouco excesso de sentimento, é violência pura e simples. E, nesse caso, há também uma dose generosa de covardia, porque quem comete um ato assim sabe exatamente o que fez e, muitas vezes, não suportaria enfrentar as consequências. Não se trata (apenas) de um gesto para aumentar a culpa de quem fica, trata-se, como todo machão que se preza, de alguém que se sobressaiu aos mais fracos, no caso, duas crianças e uma mulher fragilizada pela perda dos filhos, mas não teve culhão para pagar pelo seu crime na cadeia, pois sabe que lá seria de igual para igual e sentiria na pele o preço pelo que fez.
Enquanto isso, há uma mãe condenada a carregar a pior das dores, que é a perda dos filhos, e de forma brutal, pelas mãos de quem dizia amá-los e deveria protegê-los. Como se não bastasse o luto, ainda precisa enfrentar julgamentos, insinuações e carregar uma culpa que insistem em imputar sobre seus ombros, mesmo não lhe pertencendo. O mais triste é que muitos dos que fazem isso também têm telhado de vidro, afinal, é mais fácil buscar explicações para aliviar a própria consciência, mesmo que isso signifique transferir responsabilidades. Perder um filho por doença já é uma dor permanente, perder por assassinato é conviver diariamente com a sombra da violência e, em casos assim, com o peso social da especulação.
É urgente parar de transferir responsabilidades. Nesse caso o único culpado é quem apertou o gatilho e decidiu converter frustração em violência. Não foi amor, foi uma escolha possessiva, covarde e pensada. E esse não é um caso isolado, é mais um entre tantos que revelam uma cultura que tende a confundir controle com cuidado e posse com amor.
Amor verdadeiro não é sentimento isolado, é construção, é soma de respeito, cuidado, empatia e carinho. O amor se faz com responsabilidade, limite e liberdade. O amor genuíno é a soma de atitudes coerentes com o bem do outro, mesmo quando esse outro decide ir embora.
Que o amor seja motivo apenas do bem que pode gerar, que possamos redescobri-lo em suas diversas formas e na sua simplicidade e que nunca mais seja usado para justificar o injustificável ou para assumir um significado que não lhe pertence.