Quatro anos após o título brasileiro na Suécia, o futebol voltava a se reunir para a Copa do Mundo. Em 1962, a escolha do Chile como país-sede ocorreu em eleição disputada com a Argentina, que novamente apresentou candidatura, mas acabou superada na votação da FIFA.
Porém, pouco depois da confirmação da sede, uma tragédia quase tirou a Copa do Chile. Em 1960, o país foi atingido pelo maior terremoto já registrado na história, destruindo algumas cidades que iriam receber jogos, como Valdivia, Talca, Concepción e Talcahuano. A FIFA chegou a discutir a transferência do Mundial para outro país. Foi então que surgiu a figura de Carlos Dittborn, presidente da Federação Chilena de Futebol. Com o lema “porque não temos nada, faremos tudo”, ele liderou um esforço quase sobre-humano para manter o torneio no Chile, transformando-o em um símbolo de superação.
Dittborn, no entanto, não viveria para ver o resultado de seu trabalho. Dois meses antes do início do Mundial, ele faleceu subitamente, em circunstâncias do desgaste provocado pelo esforço de organização. Quatro cidades receberam as partidas: Santiago, Viña del Mar, Arica e Rancagua.
Esta Copa também marcou uma mudança nos bastidores do futebol mundial. Foi a primeira disputada sob a presidência do inglês Stanley Rous na FIFA, encerrando de vez a era Jules Rimet na administração do futebol. As seleções classificadas para o Chile foram: Brasil, México, Uruguai, Argentina, Colômbia, Inglaterra, Itália, Suíça, Alemanha Ocidental, União Soviética, Iugoslávia, Hungria, Espanha, Tchecoslováquia e Bulgária. Mais uma vez, africanos e asiáticos ficaram sem direito a vagas.
O Brasil foi ao Chile em um novo patamar. Após a conquista de 1958, a seleção passou a ser respeitada e temida internacionalmente. Pelé e Garrincha elevaram o nível do time, transformando o país em referência. Já não se tratava apenas de talento individual, mas de uma equipe consciente de sua força e do peso que carregava como campeã mundial.
A campanha teve início com uma vitória por 2 a 0 sobre o México. Na segunda partida, contra a Tchecoslováquia, o Brasil empatou em 0 a 0, mas o resultado foi o que menos importou. Nesse confronto, Pelé sofreu uma contusão muscular que o tirou do restante do torneio.
O lugar do Rei no ataque foi ocupado por Amarildo, e o novo titular correspondeu. No jogo da classificação contra a Espanha, o Brasil saiu atrás no placar, mas o substituto marcou dois gols e comandou a virada por 2 a 1. A partida também entrou para a história por uma polêmica: enquanto os espanhóis venciam, Nilton Santos cometeu um pênalti, mas o lateral-esquerdo enganou o árbitro ao dar dois passos para fora da grande área. O juiz anotou apenas a falta.
A partir das quartas de final, Garrincha assumiu definitivamente o papel de protagonista. O Brasil enfrentou a Inglaterra e venceu por 3 a 1, com dois gols do Mané. Na semifinal, diante do Chile, o Mané teve uma atuação lendária, marcou mais dois gols e decidiu a vitória brasileira por 4 a 2. A partida, porém, acabou com o camisa 7 expulso após uma confusão em campo. Pelas regras da época, ele deveria ser julgado e punido por uma comissão disciplinar. O bandeirinha uruguaio Estebán Marino foi o único que viu o lance, mas ele não foi localizado para depor e Garrincha foi liberado para a final. Meses depois, Marino reapareceu trabalhando em jogos do Campeonato Paulista.
Na decisão em Santiago, o Brasil reencontrou a Tchecoslováquia e venceu por 3 a 1, de virada, conquistando seu segundo título mundial. Garrincha, mesmo com 38 graus de febre naquele dia, foi novamente decisivo e consolidou sua imagem como um dos maiores jogadores da história.