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Expressão Plural

Lashon Hara

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Estou assistindo à série médica “The Good Doctor” (David Shore, 2017-2024) – super recomendo – e, entusiasmado, comecei a reassistir “House, M.D.” (David Shore e Paul Attanasio (2004-2012). Como estou em uma dinâmica mais ou menos “tudo junto e misturado”, ficam evidenciadas de modo bem interessante, através do discurso médico lido pela cultura televisiva/cinematográfica, as diferenças destes dois tempos: a primeira e a terceira décadas do século que vivemos/sofremos. Se, em “House”, os axiomas que organizam a narrativa são os de um sistema filosófico talvez trágico (“everybody lies” e “no one changes”, todo mundo mente e ninguém muda), em “The Good Doctor” o axioma parece ser o “todo mundo lida com alguma coisa” (everyone deals with something), da personagem Clare Browne – uma ontologia (talvez?) da ferida. Tem marcas do tempo e uma virada geracional aqui... Tu as percebes, caro leitor/a?

Quero explorar, neste e em textos futuros, temas ali trazidos que possam nos fazer pensar, está bem? Hoje, trago uma nota não propriamente “médica” que tomei. Há, em “House” (personagem inspirado em Sherlock Holmes e Sócrates), um episódio em que uma mulher, judia ortodoxa, sedada durante um exame delicado e demorado, entreouve os médicos que conduzem o procedimento criticando uma terceira pessoa de modo cruel e mordaz. Ela consegue balbuciar: “Não lashon hara... Não lashon hara...”. Os médicos se perguntam: “O quê?” Semi-inconsciente e enrolando a língua, ela diz: “Lashon hara... Língua má (evil tongue). Palavras são permanentes, não podem ser desditas.” E, recebendo um reforço do sedativo, volta ao estado de inconsciência. O episódio se chama “Don’t ever change” (Nunca mude), e é o de número 22 da segunda temporada.

Exploremos isso. Tem a ver com a ética judaica da fala (Telushkin, 2019) e está presente, de algum modo, em muitas tradições e mesmo no senso comum, não é mesmo? A “língua maldosa”, o “maldizer o próximo”: falar negativamente de alguém. Fazemos isso o tempo todo, reconheçamos, com maior ou menor culpa, com menor ou maior cara dura. Segundo o texto que uso como referência, “lashon hara” traria a noção de uma distinção sutil entre verdade e bondade: a verdade (digamos que o que eu estou dizendo seja verdade) não justificaria automaticamente falar mal de alguém. O episódio dramatiza o peso das palavras, o efeito de palavras que “não podem ser desditas”. A paciente está sedada, quer dizer, “ausente”, e, mesmo assim, assimila o que os médicos dizem e reúne forças para responder— como se as palavras tivessem vida própria. Notem: desde uma posição de vulnerabilidade, ela está protegendo os médicos que a estão tratando, os está chamando à consciência, está preservando sua integridade ética e moral. É como se ela fosse uma testemunha viva – e é -, uma “atestadora” de que as palavras carregam consequências mesmo quando pensamos que não têm público.

Quero salientar que a paciente, em enorme medida, está protegendo também a si mesma e à sua situação de doença e restauração de saúde. Esse ponto é difícil: afinal, não bastaria que os médicos fossem tecnicamente peritos? O episódio responde claramente: não, não bastaria. Representante radical de sua tradição religiosa, para esta paciente as palavras são ação, a linguagem é ação: se as palavras têm peso físico e psicológico (a sedação como metáfora), ela percebe que um esperado ambiente de ética e respeito estava se rompendo, recebe em cheio o eco dessa ruptura e reage. Telushkin escreve que a ética da fala é gesto espiritual e vital, não só social. É como se a paciente dissesse: “Vocês são mestres em sua ciência, mestres da mente racional? É sério? Pois melhorem: olhe para este hospital, para estas pessoas em sofrimento e... melhorem.”.

Que tal, caro leitor/a? Perscrutando isso tudo lá de sua série, o jovem médico autista Shaun Murphy, the good doctor, aprovaria com seu quase imperceptível sorriso característico.

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