Profissionais da área de saúde alertam para adeptos devem redobrar os cuidados com a alimentação e fazer um acompanhamento médico
"O veganismo é uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade. (...) uma dieta baseada em vegetais, livre de todos os alimentos de origem animal, como: carne, laticínios, ovos e mel, bem como produtos como o couro e qualquer produto testado em animais". Esta é a definição do tema principal desta reportagem, o veganismo. O conceito é da The Vegan Society, da Inglaterra, considerada a mais antiga entidade vegana do mundo.
Para algumas pessoas esse é mais do que um estilo de vida, mas uma alternativa cujo significado transcende as ações do dia a dia e podem influenciar nos resultados provenientes da natureza.
A nutricionista Angela Dorigoni explica que a opção pelo veganismo vem registrando crescimento. Segundo ela, 20% no mundo já são vegetarianos, alguns por opção, por acreditarem que é mais saudável e outros pela ideologia de defesa aos animais.
Angela salienta que o impacto na saúde é um aspecto muito importante e que todo vegetariano deveria ter um acompanhamento nutricional. Isto porque excluindo alguns produtos da alimentação habitual, acabam privando-se de algumas vitaminas, inclusive proteínas. “No momento em que a pessoa deixa de consumir carnes, independente da variedade, deixa de consumir um ferro de valor biológico muito melhor que o ferro do vegetal. Ele é chamado pelos nutricionistas de ferro M e é muito mais bem absorvido pelo corpo humano”, explica.
Angela salienta que o vegetariano tem que cuidar é que cada vez que consuma algum alimento com ferro vegetal, inclua uma fonte de vitamina C para auxiliar na absorção.
“São cuidados simples, pois a carência de ferro e cálcio é muito comum. Há outros alimentos ricos nestes nutrientes, tais como vegetais de folhas verdes, brócolis, couve-flor, mas deve ser em uma quantidade muito maior”, cita.
Outra carência, segundo a nutricionista, é de vitamina B12 que pode causar anemia, problemas neurológicos e muitas vezes é preciso fazer o uso injetável. Além disso, há o zinco, sendo que a carne vermelha é rica neste nutriente e o não consumo a longo prazo pode resultar em queda de cabelo, problema de paladar.
A nutricionista reforça ainda, alguns cuidados de biodisponibilidade, como por exemplo, comer um vegetal e querer absorver o ferro se há algum alimento que também contenha cálcio pois assim será impedida a absorção. “São vários aspectos para que a alimentação fique completa, balanceada e rica em proteínas, minerais e vitaminas”, enfatiza.
Vegetarianos estritos
Angela alerta que o vegetariano estrito acaba não sendo uma alternativa muito saudável porque raras são as pessoas que conseguem ter uma alimentação completa ou praticantes de esporte que conseguem ter uma boa performance, por realmente faltar uma vitamina de maior valor biológico.
“Com o tempo você pode perceber que os vegetarianos são mais magros e mais flácidos. Enquanto conseguimos absorver em torno de 50% de ferro em alimentos tradicionais, com os vegetais a absorção chega a 20% no máximo. Então, a longo prazo, fica complicada essa complementação e as pessoas devem ficar atentas às vitaminas, fazer uso de suplementar, fazer acompanhamento com exames”, orienta.
A parte positiva é que praticamente nunca um vegetariano terá problemas de colesterol, triglicerídeos. Contudo, há uma falha que muitos vegetarianos cometem que é o excesso de carboidratos que também não faz bem à saúde.
Na hora da alimentação
De acordo com a nutricionista, a base de alimentação dos veganos é com carboidratos e frutas. Por isso a orientação é para que o carboidrato seja o mais integral possível, pois consegue manter mais as proteínas. “Além disso, comer o maior número possível de fibras balanceadas, por exemplo, feijão e arroz (cinco vezes por semana), complementando toda a alimentação com cereais. Queijo de soja, leite de amêndoas, de arroz são acompanhamentos importantes”, reforça, dizendo também que o cardápio deve ser bem organizado (variado e completo).
Mudança de vida através do veganismo
A estaçonense Celina Braciak Zancanaro optou há sete anos por seguir o veganismo com o propósito de cuidar mais da saúde e superar os maus hábitos, tais como o de fumar.
Celina relata que aos 29 anos de idade foi estudar sobre o veganismo e sentiu-se motivada a seguir essa linha. “Não foi de uma hora para outra, e também não deixamos de aproveitar a vida, mas encontramos outras alternativas interessantes também. Comecei observar a quantidade de comida que estava ingerindo, os doces e depois fui parando com alguns alimentos gradualmente”, disse, sendo que também realiza meditação e relaxamento.
Durante o processo de adesão ao veganismo, ela também realizou um trabalho de purificação em uma comunidade agroecológica, em Balneário Camboriú. Segundo Celina, foram 10 dias em uma floresta, distante de produtos industrializados e se alimentando somente do que havia no local, tais como banana, ervas e saladas. “Foi uma experiência forte e interessante, o portal para um novo hábito”.
Entre os conhecimentos obtidos na comunidade naturalista é que para obter os nutrientes é necessário cultivar no mínimo 40 espécies de plantas.
Durante o inverno é preciso armazenar os produtos e é hora de preparar a terra.
Para ela, entre as vantagens do veganismo, está a maior vitalidade, força física, menos ansiedade, nervosismo e cansaço.
Celina comenta que também teve o interesse em plantar o próprio alimento e por quatro anos desenvolveu essa prática. Atualmente ela segue o trabalho e está com um projeto de ampliação. Tudo de forma natural.
Os benefícios do veganismo, segundo Celina, vão muito além da alimentação e tornam as pessoas mais conscientes com o respeito à vida, a natureza, proteção aos animais.
Celina também resolveu produzir cosméticos e descobriu uma fórmula benéfica para a pele e para o cabelo. São vários óleos vegetais junto com uma quantidade de soda cáustica e óleos essenciais.
Organização do cardápio
Celina consome leite de coco e de castanha, os quais ela mesma produz. Para substituir o açúcar, o melado é a alternativa mais utilizada. No lugar do chocolate está o cacau em pó.
Os grãos são mantidos constantemente e aliado a eles está a mandioca, berinjela, batatas, entre muitos outros produtos. Para substituir os ovos, ela consome linhaça hidratada.
Outro hábito é a alimentação com muitos alimentos crus. “Com o passar do tempo o paladar vai sendo adaptado”, completa.
O esposo, João, não é vegano, mas consome os produtos e aceita a opção de Celina. “As pessoas não precisam parar de comer carne, mas reduzir já seria importante para a saúde”, reitera.
Endocrinologista destaca cuidados com a alimentação
A endocrinologista e metabologista, Andrea Bervian Generosi, afirma que respeita as pessoas que aderem ao veganismo, pois é uma opção de cada pessoa, mas reforça que é imprescindível ter um acompanhamento com profissionais como nutricionista e médico. “Os nutrientes de vários alimentos que não são consumidos, precisam ser repostos, um deles é a vitamina B12, que está presente nos derivados de animais”, exemplifica.
Ainda segundo a médica, quando a pessoa inicia a dieta, é preciso fazer vários exames, para confirmar se está saudável e em seguida fazer o acompanhamento para não faltar vitaminas, pois pode ocorrer anemia, fraqueza muscular, queda de cabelo.
As crianças e adolescentes até 18 anos precisam redobrar os cuidados para não afetar o desenvolvimento.
Andrea comenta que os pacientes diabéticos, por exemplo, que precisam diminuir carboidratos e seguir uma linha de mais proteínas, devem repensar as vantagens do veganismo, pois podem ficar sem muitas opções de alimentos.