Livro de receitas
Existem alguns costumes que aos poucos vão sendo superados pelas facilidades da internet. Tudo o que era feito em papel, com formato de livro, acabou perdendo espaço para a nuvem. Essa projeção humana de informações que compartilham o mesmo espaço dos cortadores de unha e dos guarda-chuvas perdidos. Não sabemos onde estão. Tampouco onde é essa tal de nuvem. A vantagem daqueles dois é que não é possível se proteger da chuva ou cortar unhas pela internet. Assim, os livros de receita seguem mais ou menos esta tendência de desaparecimento físico. Ficam só no mental e, nalguns casos, no emocional. Não deviam ir para a internet.
Panquecas
As panquecas são como uma unanimidade. Não conheço quem não goste. As crianças, por exemplo, têm nelas a materialização do gene da ansiedade. É impossível cozinhar a massa com aquelas imagens planetárias, fazer una pilha delas, sem que um pequenito venha querer comer uma antes da hora. Diferente de muitas receitas, o protagonismo é da massa. Não é o recheio que conta. O mesmo não acontece com uma pizza ou cheeseburguer. Cozinhar panquecas não é assim tão fácil. Fazê-las girar no ar requer coragem e alguns pequenos erros na vida dos iniciantes desta iguaria. Mas não há como prepará-las doutra maneira. Para cozinhar bem os dois lados é preciso arremessá-las ao alto. Faz parte do tempero, do ritual. Quiçá, é isso que faz delas uma iguaria tão simples e tão especial.
Receita
Lá se vão quase trinta anos desde que deixei a casa dos meus pais. Foi nesse tempo que tive de aprender muita coisa, especialmente, cozinhar. E como bom filho da mãe, acabei incorporando algumas receitas no meu portfólio. Massa carbonara e panquecas, por exemplo. Nem lembro mais há quanto tempo que não como um prato desses feito pela minha mãe. Mas entre a carbonara e as panquecas, há uma grande diferença. A primeira, incorporei com facilidade à memória. Sou capaz de cozinhar com os olhos fechados. Já a segunda, é o contrário. Como não é algo rápido e que faça todas as semanas, ou todos os meses, criei um hábito no dia do preparo: telefonar para minha mãe.
Preparo
Ligar para minha mãe pela, sei lá, centésima vez para perguntar como se faz massa de panqueca, gerou nela uma certa desconfiança. Ao mesmo tempo, uma certeza. Como os nascidos no meu tempo e da minha etnia não cultivaram aquele hábito saudável de dizer “eu te amo”, criamos estes subterfúgios: massa de panqueca. É quase uma senha para dizer, “eu estou aqui”, “sinto saudades” ou, simplesmente, “eu te amo”. Porque o amor de mãe é uma coisa simples. É arroz com feijão. Mas como não gosto de feijão, tem de ser panqueca. Basta fechar os olhos e lembrar das cenas. Até consigo me transportar para a cozinha da minha mãe. Rádio ligado, a massa de panqueca dando voltas pelo ar, frigideira tinindo de quente e uma panelinha cozinhando o guisado.
Livros de receita
A vida é assim. Adaptável. Não tem livro de receitas. Cada um inventa a metáfora que mais encaixa no padrão de sentimento. Já não telefono mais para minha mãe quando vou preparar panquecas. Devia, mas ficou manjado. Mesmo assim, o ritual da cozinha é como uma celebração. Enche minhas veias de gratidão enquanto meus olhos marejam com imagens da infância. Os aromas que ficam grudados nas paredes do liquidificador indicam que para remover uma história bem construída é preciso tempo e dedicação. Limpar a cozinha depois das panquecas é como remover os sinais de uma vida, das coisas que só as mães são capazes de ensinar. E isso, é claro, jamais esqueceremos. Porque amor de mãe é assim, gostoso como uma massa de panqueca.