Sedentarismo da alma
O envelhecimento é a fase mais desafiadora da vida. É como se todas as cobranças chegassem juntas. Com a experiência acumulada ao longo dos anos, tornamo-nos mais críticos. Mas é justamente a passagem do tempo que deixa tudo tão difícil, especialmente quando descobrimos – ou imaginamos – que já não há espaço, vontade ou força para aceitar os erros da jornada e iniciar um processo de mudança que retire o sedentarismo da nossa alma.
Ancestralidade
Por mais que sejamos sedentários, carregamos memórias nômades em nossos genes. No processo evolutivo da humanidade, acabamos por trocar a liberdade pela segurança. Deixamos de viver soltos por aí para construir as nossas casas, os nossos “territórios”. Criamos e impomos limites. Compramos essas abstrações provisórias acreditando que só assim teremos mais paz e segurança. E nem sabemos por quê. Tornamo-nos acumuladores e vibramos numa frequência que nada tem a ver com a natureza. Ignoramos a abundância e escolhemos a escassez, de forma que toda e qualquer conquista material nunca pareça ser suficiente. Em muitos casos, a obsessão por acumular, por ter mais, torna-se um um vício que a velhice dificilmente consegue corrigir. Ao contrário, penaliza. E o idoso? Sofre em silêncio.
Liberdade
Não me resta nenhuma dúvida de que a humanidade - em geral - vive mal e vive errado. Esta sanha por segurança, por acumulação, por competitividade, dá origem às disputas, às fraudes, aos crimes e à guerra. Vibramos nessa ideia de território, de limites, em nome de uma suposta segurança que nunca chega. Enquanto a vida passa, a natureza acena. Às vezes, com ventos que já se podem chamar de tornados. Adquirimos doenças, limitações físicas, traumas e medos. Para neutralizar essas forças reagentes e contrárias à vida, buscamos compensar com distrações de todo o gênero. Assim, vemos o rico invejando a paz do caboclo, que não pesca para relaxar, apenas para ter o que comer no dia seguinte. Ou, os criadores de cavalos de raça, que no fundo só querem montar e contemplar a natureza. Mas o vício torna tudo um negócio, que hoje é vendido com o nome de “experiência”.
Finalmente
Mas o tempo, em seu mais justo e acertado compasso, passa. Quando a vida não é abreviada por causas desconhecidas e não nos damos conta de nosso modus vivendi, chegamos ao final do caminho com um olhar triste. O olhar de quem aplicou todos os recursos financeiros e mentais para o nada. Sim, o nada. Porque em vez de buscarmos a comunhão com a natureza, fonte inesgotável de toda a paz, vivemos preocupados com as aparências, com o que os outros irão pensar de nós, quando na verdade, esses julgadores egoístas pensam exclusivamente em si mesmos. Então, quando já não há mais saúde, quando o tempo parece ter chegado ao fim, nos damos conta de que a vida acabou, o que é outro grande erro.
Vida eterna
Não importa a corrente religiosa ou filosófica. A vida é eterna. Confundimos corpo com alma. Outro dia vi uma frase em um filme que dizia: "quando as pessoas pensam que algo chegou ao fim, pode ser apenas o início de algo ainda melhor. Se a vida for só um aperitivo, quão boa será a vida após a morte?" Mas não adianta pensar assim. É preciso mudar o padrão vibratório. É preciso abrir mão da segurança exagerada, mesmo que se corram certos riscos. Do contrário, acabamos nossa jornada como céticos, velhos chatos e rabujentos. Mofamos nossas sementes e, quando somos - inexoravelmente - jogados ao novo plano, não brotamos, por acreditar que estamos vivendo a experiência da última encarnação. E o nome disso é apego.