Ginásio
Sempre que ouço alguém dizer a palavra ginásio, logo me lembro do meu pai e das poucas histórias que ele contava. Naquele tempo, o ginásio era o período da escola que ficava entre as séries iniciais e o ensino médio. Seria, nos moldes atuais, o equivalente ao período que vai do quinto ao nono ano. Mas o ginásio de que vou falar hoje é o português, que aqui tem outro significado, mas que não posso contar agora.
Exames médicos
Há duas semanas saí taciturno de minha consulta médica de rotina. Imaginem: foi logo depois das férias de verão. Era óbvio que os marcadores não me perdoariam. Em vez de me cuidar para ter bons indicadores no hemograma (o que é uma mentira), chutei o balde, levemente, com moderação. Mas chutei. Os resultados até que não me surpreenderam negativamente, mas era preciso dar uma resposta. Uma resposta que não viria do médico, das estatinas que terei de tomar, além da losartana e da reposição hormonal da tireoide. Era algo unicamente meu. Uma resposta que só diria respeito a mim.
Ginásio
Depois do médico, da farmácia e das estatinas, tomei outras providências. Destaco uma, que me levou a um lugar que poderia ser chamado de céu, não fosse o calor vulgar e os sons que lá se ouvem. Uma mistura metálica de respiração, sudorese, música e movimentos repetitivos, quase autômatos. Lá dentro, gente jovem, corpos alinhados, mas havia um ou outro barrigudo como eu, além da vizinha sobrepesada que sempre vejo passear com o cachorro. Nem imaginava que carminhar com o cão engordava. Eu estava perdido, sem saber por onde andar e tampouco o que fazer. Não fosse a vizinha, seria um total estranho no ninho. Num lampejo de lucidez pensei que tinha morrido. O lugar era realmente estranho, não conversava comigo. Não chegava a ser inóspito, mas tinha uma atmosfera que em nada lembrava o céu, senão pelos corpos saudáveis que lá circulavam. Foi quando me dei conta: eu estava numa academia!
A academia
Estou convencido de que, no caso das pessoas privilegiadas como eu, dessas que não têm doenças graves, a saúde depende exclusivamente do comportamento. Também estou convencido de que fiz muito mal ao meu corpo nessas duas últimas décadas. Churrascos, cervejas e sofá. Não necessariamente nesta ordem, mas muito pouco exercício físico. Uma combinação mortal, eu sei. Para além das obrigações, apenas as distrações que a vida agitada nos oferece. Nessa rotina casa-trabalho-casa, quanto mais nos cansamos para conquistar ou manter bens e recursos, mais gastamos com coisas que tiram a nossa saúde. O problema é que esse comportamento se cristaliza. Fica difícil estabelecer novas rotinas, ainda mais quando se vive em família, rodeado de gerações diferentes e que esbanjam vitalidade. Por falar nela, sabemos que ela é finita. Chegar ao fim da vida com saúde garante uma morte corporal digna, além de não dar trabalho aos outros.
Confissão
Demorei, mas me dei conta de que não posso cuidar apenas do meu espírito. Por isso estou aqui, fazendo essa confissão. Com oitenta e dois quilos e uma barriguinha bem portuguesa, culpa da habilidade com que os tugas transformam o trigo em pão e as uvas em vinho, começo, quiçá, um novo tempo. Nada de abstinências, jejuns, ou outras fantasias que já pratiquei. Agora é exercício físico. Sem desculpas, apenas uma leve mudança de hábito. A partir de agora, lá vou eu ao céu, que por muito tempo me parecia um inferno, tamanha minha resistência. Não gosto das academias, tenho preguiça. Não vejo graça em ficar esculpindo o corpo, por mais que na juventude o meu fosse muito adequado aos padrões atuais (e sem academia). O que eu preciso então? Saúde. A condição para levar corpo e mente adiante. Há tantas coisas que ainda quero fazer, tantos livros para ler. E o ginásio? Ah, é como os portugueses se referem à academia. Para eles, a academia é o ambiente universitário. Então, não vai ser uma “academia” que vai me derrubar. Nem ela, nem o colesterol. Viva! Estou de volta à quinta série!