Aqui dentro, me despeço todos os dias das expectativas que nutri vez ou outra. Nos desencontros comigo, deixo que vá para que volte a me conhecer, reconhecer e, tantas outras vezes, reencontrar. Não quero que fique se não quiser ficar, mas o que sinto sente a falta que, distraída, facilmente se confunde com o reflexo exterior. Assim, deixa de se identificar e te procura, a fim de salvar, ainda que um resquício, o que foi. Isso se é que não é mais, porque nesse instante pode ter sido, mas e agora? E agora? O que fazer com o que pode ser ou, ainda pior, o que poderia ter sido? Nada. Nada que também tudo é, afinal, me parece tênue a linha entre o que sou e aquilo que fomos. Sei que não saber faz com que a certeza sobre tudo e qualquer coisa pareça simples código de conduta. É que sentir e saber são distintos entre si também, mas em dado momento da equação se encontram, e a conta não fecha. Resultado: mais uma questão. Se de fato há tantas possibilidades em aberto, como identificar o que há, aí, que reflete, aqui? Restam então todas as perguntas, sem respostas. E mais e mais perguntas, menos e menos respostas. Esse esforço em decifrar o que está implícito, porque sentir muito mais me interessa do que o sentido, e lá vou eu de novo, morrer em mim. Nem sempre, ou quase sempre, procuro as respostas, porque é no ato de perguntar que retorno aqui, ao interior de onde venho. Fugir depois de bagunçar tudo é de tamanha irresponsabilidade, que me permito cometer seguidamente, comigo, quando voltar. Conviver com o constante desconforto de ser faz com que questione ainda mais quem sou. Me apresento hoje para que amanhã tenha sede de descobrir mais e mais de novo. Não te instiga o suficiente, a ânsia de não saber ao certo, ou errado, e então desconhecido, profundo ser? Um convite para mergulhar, na intenção de não voltar o mesmo, aceitaria? Te quero diferente porque preciso que alimente minha curiosidade todos os dias, pelo menos três vezes ao dia, com fartura. É transtorno, sim, que conduz ao vômito: só assim para colocar pra fora as versões que descansam no eu, para que não pare de pensar por um minuto sequer. Essa é a parte que busca ser entendida sem tentar fazer sentido. Me entenderia ou teria que se esforçar? Porque se te exigir esforço, já não quero mais, ainda que muito me seduza a possibilidade de instigar até chegar no ponto em que quebraria a cabeça com a sutileza da subjetividade, buscando, procurando, tentando e tentando entender. Talvez só queira isso, só isso e nada mais. A busca incessante, a falsa ideia de chegar lá enquanto se depara com um imenso e até mesmo grotesco talvez. A armadilha que elaboro, assim que se mostra eficaz, me causa náusea. Então solto, porque do que me adianta ter sem que seja, entende? E se entende, como? Mais do que isso, o quê? Me explicaria no papel, descreveria cuidadosamente ou só, e somente, me soltaria? As perguntas são tão mais perguntas do que as respostas são respostas, evidentemente. De nada me adianta saber agora se a mudança é a única etérea. Não responda, então, mas permito que mostre. E agora? A mim, me basta meu desconserto.
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