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Expressão Plural

Carta escancarada

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Marina Oliveira
Por Marina Oliveira
Foto Arquivo pessoal

Aqui dentro, me despeço todos os dias das expectativas que nutri vez ou outra. Nos desencontros comigo, deixo que vá para que volte a me conhecer, reconhecer e, tantas outras vezes, reencontrar. Não quero que fique se não quiser ficar, mas o que sinto sente a falta que, distraída, facilmente se confunde com o reflexo exterior. Assim, deixa de se identificar e te procura, a fim de salvar, ainda que um resquício, o que foi. Isso se é que não é mais, porque nesse instante pode ter sido, mas e agora? E agora? O que fazer com o que pode ser ou, ainda pior, o que poderia ter sido? Nada. Nada que também tudo é, afinal, me parece tênue a linha entre o que sou e aquilo que fomos. Sei que não saber faz com que a certeza sobre tudo e qualquer coisa pareça simples código de conduta. É que sentir e saber são distintos entre si também, mas em dado momento da equação se encontram, e a conta não fecha. Resultado: mais uma questão. Se de fato há tantas possibilidades em aberto, como identificar o que há, aí, que reflete, aqui? Restam então todas as perguntas, sem respostas. E mais e mais perguntas, menos e menos respostas. Esse esforço em decifrar o que está implícito, porque sentir muito mais me interessa do que o sentido, e lá vou eu de novo, morrer em mim. Nem sempre, ou quase sempre, procuro as respostas, porque é no ato de perguntar que retorno aqui, ao interior de onde venho. Fugir depois de bagunçar tudo é de tamanha irresponsabilidade, que me permito cometer seguidamente, comigo, quando voltar. Conviver com o constante desconforto de ser faz com que questione ainda mais quem sou. Me apresento hoje para que amanhã tenha sede de descobrir mais e mais de novo. Não te instiga o suficiente, a ânsia de não saber ao certo, ou errado, e então desconhecido, profundo ser? Um convite para mergulhar, na intenção de não voltar o mesmo, aceitaria? Te quero diferente porque preciso que alimente minha curiosidade todos os dias, pelo menos três vezes ao dia, com fartura. É transtorno, sim, que conduz ao vômito: só assim para colocar pra fora as versões que descansam no eu, para que não pare de pensar por um minuto sequer. Essa é a parte que busca ser entendida sem tentar fazer sentido. Me entenderia ou teria que se esforçar? Porque se te exigir esforço, já não quero mais, ainda que muito me seduza a possibilidade de instigar até chegar no ponto em que quebraria a cabeça com a sutileza da subjetividade, buscando, procurando, tentando e tentando entender. Talvez só queira isso, só isso e nada mais. A busca incessante, a falsa ideia de chegar lá enquanto se depara com um imenso e até mesmo grotesco talvez. A armadilha que elaboro, assim que se mostra eficaz, me causa náusea. Então solto, porque do que me adianta ter sem que seja, entende? E se entende, como? Mais do que isso, o quê? Me explicaria no papel, descreveria cuidadosamente ou só, e somente, me soltaria? As perguntas são tão mais perguntas do que as respostas são respostas, evidentemente. De nada me adianta saber agora se a mudança é a única etérea. Não responda, então, mas permito que mostre. E agora? A mim, me basta meu desconserto.

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