Quem anda pelas estradas do interior conhece bem o som da esperança: o cantar do galo, o ronco dos tratores ao amanhecer, o mugido das vacas leiteiras, a terra seca abrindo espaço para a semente, o orgulho estampado no rosto de quem vive de alimentar a nação. O setor primário é o coração pulsar do Brasil, a engrenagem que não para e que sustenta, ano após ano, os melhores números da nossa economia. Mas, por trás dos gráficos reluzentes do PIB, há um contraste doloroso no campo, especialmente no sul do país.
O agricultor gaúcho e o produtor brasileiro têm enfrentado uma sequência impiedosa de golpes. Não bastassem os anos consecutivos de secas severas que castigaram a terra e dizimaram safras inteiras, vieram as enchentes históricas. A água que faltou ontem sobrou hoje, levando embora não apenas a produção, mas estruturas inteiras construídas ao longo de gerações. O resultado é um cenário devastador para quem vive do solo e depende exclusivamente do clima para honrar seus compromissos.
Entretanto, o que mais machuca o produtor rural neste momento não é apenas a força da natureza, mas a insensibilidade da caneta. Existe uma dificuldade gritante por parte do governo federal em compreender a gravidade do momento delicado por que passa o campo. O debate para encontrar uma saída concreta, seja por meio do parcelamento de dívidas, da renegociação justa ou da securitização que vem sendo ignorado e empurrado com a barriga nas ilhas de fantasia de Brasília, apesar do esforço das lideranças organizadas dos agricultores e do esforço de alguns parlamentares.
É preciso deixar algo muito claro: o homem do campo não está pedindo esmola. O agricultor não quer dinheiro de graça, assistencialismo ou benesses injustificadas. O que se exige é dignidade financeira. Trata-se do acesso a financiamentos com juros justos e prazos de carência adequados, que permitam reorganizar as contas sem sufocar a produção. O produtor precisa de fôlego para continuar investindo, gerando riquezas e fazendo o que sabe de melhor: produzir alimentos para a mesa dos brasileiros e matérias-primas que movimentam a matriz energética e impulsionam o desenvolvimento do país.
Ignorar a crise do agronegócio é um tiro no pé da própria nação. Quando o campo quebra, a cidade sente o golpe nas prateleiras dos supermercados, na inflação e no desemprego. Valorizar o setor primário não é um favor que o Estado faz ao produtor, mas um dever estratégico de quem tem a obrigação de zelar pelo futuro do Brasil.
O tempo da terra não espera pelas deliberações lentas das burocracias governamentais. A safra seguinte exige preparo, insumos e coragem. O governo federal precisa sair da defensiva, ouvir quem realmente produz e apresentar uma posição firme e imediata. Dar condições para que o produtor rural continue de pé é, em última análise, garantir que o Brasil não caia.