Poucas bebidas carregam consigo uma história tão brasileira quanto a cachaça. Nascida no período colonial e construída ao longo dos séculos pelas mãos de pequenos produtores, famílias e alambiqueiros, a bebida se transformou em patrimônio cultural e também em uma cadeia produtiva que movimenta agricultura, indústria, comércio e turismo.
Neste domingo, 13 de setembro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Cachaça, uma data que também serve para olhar para a evolução de um produto que deixou de ser associado apenas à tradição popular e passou a ocupar espaço entre bebidas de qualidade, com produção artesanal, envelhecimento em diferentes madeiras e presença crescente no mercado internacional.
E o Rio Grande do Sul tem participação importante nessa história. Dados do Anuário da Cachaça 2026, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mostram que o Estado fechou 2025 com 106 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados, número que coloca o Rio Grande do Sul na terceira posição nacional, atrás apenas de Minas Gerais, com 564 estabelecimentos, e São Paulo, com 230.
No país, eram 1.538 estabelecimentos registrados em 844 municípios em 2025. O levantamento também contabilizou 8.379 cachaças registradas no Sistema Integrado de Produtos e Estabelecimentos Agropecuários (Sipeagro). No Rio Grande do Sul, eram 603 produtos registrados.
Os números mostram que a bebida está longe de representar apenas uma tradição do passado. A produção brasileira declarada alcançou 234,4 milhões de litros em 2025, enquanto as exportações chegaram a 7,95 milhões de litros, enviados para 76 destinos, com receita de US$ 17,07 milhões.
Uma história que também passa pelo Alto Uruguai
No Alto Uruguai, a história da cachaça encontra uma trajetória familiar que atravessa gerações. Em Erechim, a Filippini mantém uma tradição que começou ainda no final do século XIX, quando o imigrante italiano Erasmo Filippini chegou à região trazendo conhecimentos relacionados à produção de vinho e grappa.
Foi na década de 1930, incentivado pelo filho Ermelindo, que a família passou a produzir cachaça. A atividade cresceu às margens do Rio Uruguai, onde as condições para o cultivo da cana contribuíram para a formação de uma tradição que permanece até hoje.
Depois de um período em que a produção artesanal perdeu espaço diante da industrialização e do aumento dos custos, a família retomou a produção de cachaças de alambique em uma nova etapa. Em 2014, a Filippini lançou sua linha de cachaças premium, resgatando a tradição familiar e incorporando técnicas modernas de controle de temperatura, utilização de leveduras selecionadas e envelhecimento em barricas de carvalho.
É um exemplo de como a produção regional pode unir memória, conhecimento transmitido entre gerações e tecnologia.
Do produto artesanal ao mercado
A transformação da cachaça também passa pela valorização da qualidade. A produção de alambique, normalmente realizada em pequenas bateladas, permite ao produtor trabalhar características específicas de aroma, sabor e envelhecimento.
O próprio Ministério da Agricultura aponta que o crescimento do número de estabelecimentos e produtos registrados demonstra a expansão e a diversificação da cadeia. Em 2025, foram registrados 1.538 estabelecimentos no país, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior.
No Rio Grande do Sul, a tradição encontra características próprias. A influência da imigração europeia, a agricultura familiar e a diversificação das propriedades rurais ajudaram a construir uma identidade regional também na produção de bebidas.
Nesse cenário, a cachaça pode representar mais do que um produto final. Ela pode estar associada ao cultivo da cana, à agricultura familiar, à agroindústria, à gastronomia e ao turismo rural, criando novas possibilidades de renda para propriedades e comunidades.
Uma bebida que ganhou o mundo
A presença internacional também mostra a transformação do setor. Em 2025, a cachaça brasileira foi exportada para 76 mercados. Embora o volume exportado ainda represente uma pequena parcela da produção nacional, a presença em outros países reforça a tentativa do setor de apresentar a bebida brasileira como um produto de maior valor agregado.
A data de 13 de setembro tem ainda uma ligação histórica. Ela remete à Revolta da Cachaça, movimento ocorrido em 1661 no Rio de Janeiro, quando produtores se rebelaram contra medidas que restringiam a produção da bebida. A data passou a ser utilizada para celebrar a cachaça e sua importância na história brasileira.
Mais de três séculos depois, a cachaça continua contando histórias. Algumas estão nos grandes mercados, outras nos restaurantes e bares, mas muitas permanecem nas pequenas propriedades e nos alambiques familiares.
No Alto Uruguai, essa história ganha ainda um significado especial: é a memória de famílias que transformaram a cana em trabalho, tradição e identidade.
Da cana plantada no campo à garrafa que chega à mesa, a cachaça continua sendo uma das expressões mais genuínas da cultura brasileira — e uma tradição que, no Rio Grande do Sul e no Alto Uruguai, segue encontrando novas formas de permanecer viva.
CACHAÇA EM NÚMEROS
- 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados no Brasil em 2025
- 844 municípios brasileiros com estabelecimentos registrados
- 106 estabelecimentos no Rio Grande do Sul
- 603 cachaças registradas no Estado
- 234,4 milhões de litros de produção declarada no Brasil em 2025
- 7,95 milhões de litros exportados
- 76 países receberam cachaça brasileira
- US$ 17,07 milhões em exportações