Em um intervalo de aula, dia desses, uma aluna me perguntou na lata se eu acreditava na ideia de que “o Universo conspira em nosso favor”. Como até as pedras da Muralha da China sabem, trata-se de uma ideia muito difundida em círculos religiosos, ou mítico-místicos, não tradicionais ou não convencionais, sobretudo aqueles de algum modo ligados ao que até bem pouco tempo atrás chamava-se “New Age”. Bem: pelas aulas do semestre, pensei, ela já podia ter inferido que não, que eu não acreditava naquela ideia. Só que ali, naquela circunstância de um diálogo rápido, eu acabei me atrapalhando na resposta: quis dizer para ela que, apesar de meu treino acadêmico inteiro gritar contra a ideia, eu, particularmente, não gosto de “falar mal” dela, como se faz comumente, e até virou moda, por aí, em ambientes mais críticos. Por quê? Quis dizer, mas acho que não consegui. Então, pensei que eu devia elaborar um texto para saber o que eu acho disso de um jeito mais arrumadinho.
Mesmo em termos científicos, reconhece-se a existência de uma interconexão “entre tudo”. Neal DeGrasse Tyson: “Nós somos fisicamente ligados ao Cosmos, quimicamente ligados à Terra e biologicamente ligados uns aos outros e à vida na Terra.” Qual é a diferença em relação a um Universo que “conspira”? É que na ideia de um Universo que “conspira” encontra-se subsumida a ideia de que há uma intenção, e, portanto, uma consciência que “intenciona”, por parte do e no Universo – ao menos nas versões mais simples, ou mais simplificadas, da ideia. Como se o Universo fosse um tipo de divindade, ou de divindades. Em Tyson, note-se, o Universo é indiferente: aquelas ligações são materiais.
Lendo um artigo que comentava uma notícia que dava conta da relação entre doenças e mudanças climáticas, obtive uma chave, uma inspiração para formular a razão pela qual eu não gosto de criticar a ideia do Universo “conspirador”. A notícia: “Perigos climáticos como inundações, ondas de calor e secas estariam diretamente conectados a uma piora em mais da metade (218 de 375) das centenas de doenças infecciosas humanas conhecidas, diz estudo publicado no Monday’s Journal of Nature Climate Change.” O autor do artigo observa que, por mais complexos, sofisticados e multidirecionais que tenhamos nos tornado em nosso modo de pensar o mundo, ainda costumamos pensar “em uma coisa de cada vez”, e que ele certamente punha as mudanças climáticas e as doenças em duas categorias diferentes. É claro que todo mundo liga doenças respiratórias, por exemplo, à poluição do ar, ou mortes relacionadas ao calor, ao aquecimento global. São ligações mais óbvias, mas o que o estudo sugere é algo muito, muito mais nuançado. É uma rede, uma tapeçaria. Aquelas “duas categorias” só são “duas categorias” para nós; elas mesmas podem ser uma mesma coisa, aspectos (com que grau de costura, de entrelaçamento?) de uma mesma coisa.
Já ouvi o Lama Samten afirmar algo como isto: se estivermos bem postados no mundo, lucidamente situados em nossas redes de relações, as quais têm sua inteligência própria, “milagres” podem acontecer: uma situação pode se “montar” sem que ninguém a “dirija”, uma ajuda pode sobrevir, o telefone (como cantou Renato Russo) pode e irá tocar. O “Universo” pode, sim – e em um certo sentido -, “conspirar”, mobilizar-se. Inclusive contra, como é o caso da malária, uma das doenças infecciosas mencionadas no estudo.
O quanto de ligações e conexões entre tudo o que há – e o que ainda não há - está por ser desvelado, e o quão múltiplos serão seus efeitos e manifestações em nossa vidinha miúda? É melhor olhar com respeito para o que não sabemos. Com respeito e com intenção.