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Opinião

Na emergência

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Tirar ideias de conteúdo enquanto se está internado na emergência (coisa leve, embolia pulmonar) é para poucos. Minha família disse que, nesse caso, eu já estava exagerando, que tinha passado dos limites. Fazer o quê? Sala de espera serve até para isso. É que, na verdade, a vontade de registrar o cotidiano é maior do que a dor. Daí vem essa mania meio esdrúxula de enxergar assunto nos momentos mais inusitados.

E confesso: adoro método, modelos, frameworks, processos claros. Então, na emergência, uma coisa me chamou especialmente a atenção: o Protocolo de Manchester e sua classificação de risco por cores. Para cada paciente que chega, existe uma prioridade definida de acordo com a gravidade do quadro. Não é simplesmente uma fila por ordem de chegada. É uma fila por risco.

O vermelho representa emergência: risco imediato à vida e necessidade de atendimento imediato.

O laranja indica uma situação muito urgente, que exige atendimento rápido, com tempo de espera máximo de 10 minutos.

O amarelo sinaliza situação urgente, com potencial de agravamento e necessidade de atendimento prioritário, com espera de até 1 hora.

O verde representa situações pouco urgentes, nas quais o paciente pode aguardar por até 2 horas.

E o azul identifica situações sem urgência, que podem esperar ainda mais ou até ser encaminhadas para uma UBS.

E tem uma coisa fascinante nesse processo: a cor não pergunta quem você é. Não importa sua renda, cargo, seu sobrenome, credo, time de futebol ou quantos seguidores você tem no LinkedIn. O que importa é uma única coisa: a gravidade da situação.

E aí, inevitavelmente, comecei a pensar nas empresas. Porque também existem empresas verdes, amarelas, laranjas e vermelhas. Tem empresa saudável, que pode seguir seu curso. Tem empresa amarela, apresentando sinais de alerta e que precisa de intervenção antes que o quadro se agrave. Tem empresa laranja, em situação muito urgente, que exige decisões rápidas, objetivas e, muitas vezes, desconfortáveis. E tem empresa vermelha, aquela em que já não se está mais discutindo estratégia, está se discutindo sobrevivência.

O problema é que, nas empresas, ninguém coloca uma pulseira colorida no braço do CEO dizendo: “Atenção: esta empresa precisa de UTI”. Mas os sinais estão lá. O DRE avisa. O caixa avisa. A margem avisa. A queda nas vendas avisa. O endividamento avisa. A perda de clientes avisa. A equipe avisa.

Só que, muitas vezes, a gestão prefere chamar os sintomas de “oscilações do mercado”. E talvez essa seja uma das grandes lições que o Protocolo de Manchester pode trazer para a gestão: não esperar ficar vermelho para começar a tratar o amarelo. Porque, tanto na saúde quanto nos negócios, o melhor momento para agir quase nunca é quando a situação já virou emergência.

Diagnóstico precoce continua sendo um excelente modelo de gestão. E prometo: na próxima internação (espero sinceramente que não aconteça), tento pensar em outras coisas.

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