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Expressão Plural

Ulisses de Pessoa, Homero e Joyce

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

     "O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus é um mito brilhante e mudo - o corpo morto de Deus, vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, foi por não ser existindo, sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo e nos criou. Assim a lenda se escorre a entrar na realidade, e a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade de nada, morre."

    Este é "Ulisses", de Fernando Pessoa, poema publicado em 1934 e que aqui trago como um texto corrido. Extraordinário, não é? Caracteriza-se, entre outras possibilidades, pela demonstração de que os mitos moldam a realidade tanto quanto os fatos. Talvez seja justamente por isso que Ulisses e sua odisseia continuem retornando. O herói da tradição grega atravessou mais de dois milênios porque deixou de pertencer apenas à história ou à literatura antiga para tornar-se uma forma de pensar a experiência humana. Cada época inventa o seu Ulisses. Fernando Pessoa o transforma em fundador mítico de Portugal; Homero o apresenta como o herói do retorno; e James Joyce o reinventa como um homem comum caminhando pelas ruas de Dublin. É esse último Ulisses que me interessa aqui.

    Publicado em 1922, “Ulisses”, de Joyce, parece sugerir que a singularidade da vida moderna pode ser compreendida quando colocada diante do espelho de um mito antiquíssimo. Um Ulisses do século XX diante do Ulisses da Grécia arcaica de Homero. Que diferenças haverá entre eles? Encontramos o Ulisses de Homero na “Ilíada” e na “Odisseia”. A “Ilíada” narra a história da Guerra de Tróia (Ílios é Tróia em grego), e a “Odisseia” narra a volta de Odisseu (Ulisses, em latim) para casa. Somados, são vinte anos: dez na guerra e dez voltando para casa. Já com o Ulisses de Joyce – que, aliás, se chama Leopold Bloom (não há um Ulisses em “Ulisses”) -, topamos em um único dia, o dia 16 de junho (o célebre Bloom’s Day, bem conhecido dos leitores/as de Joyce). Vinte anos contra um dia.

    Mesmo tendo ido um tanto contrariado para a campanha de Tróia, Odisseu/Ulisses não demonstra nenhuma hesitação, nenhuma dúvida. Nunca. Feita (e vencida) a guerra, ele volta para Ítaca, a ilha que governa, e para sua esposa Penélope. Ainda que levasse dez anos nessa volta, passando por todo tipo de dificuldades, desventuras, tretas e armadilhas que se possa imaginar, ele sabe que tem de retornar e que Penélope (driblando mil e um pretendentes) o espera. Orientado pela tradição, pelo “passado” – de onde emana sua identidade, seu lugar no mundo - não há espaço para dúvidas, para elucubrações, para caraminholas na mente de Odisseu/Ulisses. Há uma ordem a ser restaurada em seu oikos, sua casa, um caos a ser rearranjado em cosmos.

    O Ulisses/Bloom de Joyce, no entanto, é só hesitação e dúvida. Sempre. Ele não sabe o que fazer com seu dia, só sabe que não quer voltar para casa – ou, por outra, que quer voltar para casa o mais tarde possível. Sabe, também, que sua esposa, Molly, planeja encontrar-se com um outro homem naquela tarde, em sua própria casa (spoiler: ela o fará). Ulisses/Bloom tem de inventar o seu dia, cada passo de seu dia, fazendo inúmeras ponderações a respeito de absolutamente cada momento desse dia que se desdobra em infinitas possibilidades, todas bastante comezinhas. Nada de guerras de troias e de retornos heroicos para casa, nenhuma Atena ou Circe, nenhuma Calypso: apenas tomar a “enorme” decisão de se deve ou não comprar o jornal em uma banca e ir a um café, ou ir a um barbeiro para fazer a barba – e assim por diante, vivendo o mais comum dos dias sob as mais banais e persistentes dúvidas. Orientado pela cultura de que se deve criar um futuro que está em aberto, assim como uma identidade e um lugar no mundo, Ulisses/Bloom é uma verdadeira usina de angústia e ansiedade. Um herói em uma outra guerra.

    Nesse diapasão, é como se a modernidade tivesse mudado a direção da seta que, antes, apontava para trás, apontando-a agora para a frente. De minha parte, não julgo nenhum dos dois (dos três), procuro compreendê-los. Mas, se é que a pergunta faz sentido, gosto, como leitor, de brincar de pensar: que Ulisses é mais livre?

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