“Aqueles que vêm a nós querendo formar-se, sejam acolhidos com bondade e sejam iniciados na formação integral ” (Regra não Bulada II, 1;3).
Com a inspiração na espiritualidade de São Francisco de Assis, o espaço educacional franciscano apresenta elementos significativos para análise e reflexão. Pensar o jeito franciscano de educar enquanto uma pedagogia do encontro provoca-nos a observar que, no caminho formativo integral do ser humano, faz-se necessário o exercício dos verbos querer, acolher, iniciar e formar acompanhados do substantivo bondade. Diante de uma conjuntura social complexa, marcada pela aceleração tecnológica e pela lógica de mercado, cabe-nos perguntar: que elementos podem ser considerados inegociáveis no ambiente educacional? O que sustenta o jeito franciscano de educar? Essas questões nos mobilizam a buscar de forma sistemática o ser franciscano no que tange à oportunidade humana e intelectual de transformação das realidades.
A pedagogia contemporânea provoca o docente a promover o protagonismo do estudante. A tradição franciscana, ao valorizar o querer do estudante, rompe com qualquer pretensão de uma educação vertical, na qual o estudante seria um recebedor passivo de conteúdo. Compreende-se que ensinar exige respeito à autonomia do estudante, explicitando que não há docência sem discência (Freire, 1996), e o educador que desconsidera o saber do outro fragmenta a tarefa de educar. O conhecimento não é transmitido, mas construído pelo sujeito em sua interação ativa com o mundo, o que reforça, do ponto de vista psicológico, a centralidade do querer como ponto de partida da aprendizagem (Piaget, 1970). Com a bondade torna-se possível o encontro genuíno entre quem ensina e quem aprende, criando assim, condições de confiança e estímulo para a aprendizagem. Esse encontro pode ser lido à luz do conceito vigotskiano de mediação, em que a aprendizagem ocorre na sociabilidade e no espaço relacional entre sujeitos (VIGOTSKI, 1984). A bondade no ambiente escolar significa exercitar o acolhimento das múltiplas subjetividades presentes no processo formativo, colocando-as em convergência e em direção de um objetivo comum: formar sujeitos humanos, solidários e justos. A bondade pedagógica é um princípio inegociável que sustenta a relação educativa e antecede qualquer conteúdo a ser construído. É concreto que o ser humano se constituí na relação intersubjetiva.
Diante de uma sociedade marcada pela aceleração tecnológica, pela fragmentação das relações e pela lógica de mercado, torna-se necessário cultivar a dignidade humana como ponto de partida de toda relação pedagógica. A sustentação do jeito franciscano de educar ocorre na articulação entre o ensino, a aprendizagem e a evangelização, dialogando com diferentes contextos históricos sem perder a sua identidade. Sustenta-se na compreensão de que educar é um ato de amor e de fé. A formação franciscana propõe o testemunho, conceito que Nóvoa (1992) chama de indissociabilidade entre o eu pessoal e o eu profissional do educador. O professor ensina o que sabe e também aquilo que é. Formar-se como professor é um processo identitário que ultrapassa a técnica e apreende a história de vida do sujeito que educa. Do ponto de vista da profissão docente, essa leitura reforça a essência que a tradição franciscana atribui ao testemunho. Santa Maria Bernarda destaca que as palavras convencem, porém o testemunho arrasta.
Neste cenário, a pedagogia do encontro ocorre no exercício do cuidado, da reciprocidade. Tornamo-nos humanos na medida em que possibilitamos o encontro com outro. Neste encontro ocorre o debate e o embate de ideias, fazendo com que o ambiente da sala de aula seja de construção colaborativa. Busca-se a curiosidade que mobiliza o professor e o estudante ao ensino e a aprendizagem compreendido-os pela possibilidade de criação e recriação do mundo.
Por fim, a educação franciscana tem como tese assumir o processo educativo inspirado nos valores humanos, éticos, morais, espirituais, científicos e ambientais que visam favorecer o desenvolvimento integral do ser humano, essencialmente ligado à transformação da consciência e das relações. Busca-se desenvolver potencialidades, assumindo o compromisso com a formação de um ser humano que possa encontrar-se consigo mesmo, com o outro, com Deus e com a natureza. O processo educativo se faz a partir dos sentidos, das relações da ciência, da filosofia, da contemplação, da observação, da teoria e da prática.
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Jaqueline Zilli: Graduada em Ciência da Computação pela Universidade de Passo Fundo - UPF, em Tecnologia de Processos Gerenciais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, Especialização em Espiritualidade Franciscana pela Escola de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF e MBA em Gestão Empresarial pela FGV/RJ. Atua no setor de TI apoiando os processos de gestão na Associação Maria Auxiliadora - AMA, na Associação Educacional e Caritativa - ASSEC.
Volnei Fortuna: Pós-Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade La Salle Canoas (UNILASALLE). Mestre e Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF). Formado em Filosofia pelo Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE). Diretor Geral do Colégio Franciscano São José.