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Expressão Plural

Há tempos: entre o tumulto e a pressa

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Gerson
Por Gerson Severo
Foto Gerson Severo

Eu estava escolhendo, separando uns três ou quatro livros para este recesso de inverno na universidade, e me deparei com um livro para o qual sempre acabo voltando (é um desses livros que, depois de algum tempo, invertem o jogo e começam a nos ler: sessão de terapia). Trata-se de “Só Poema Bom (Alcance, 2000), obra em que o escritor e tradutor Paulo Hecker Filho compila seus poemas favoritos de uma vida de leitura. É uma compilação erudita e exigente. Só poema bom, só poeta bom (é preciso reconhecer, porém, que “bom”, aqui, corresponde a uma certa crítica literária velha, elitista; longa história). Assim, não é sem um certo espanto que encontramos ali o texto em prosa poética “Desiderata”.

Te pergunto, caro/a leitor: tu te lembras de quando leu “Desiderata” pela primeira vez? “Ide tranquilamente entre o tumulto e a pressa”, e tal. Sim? Eu de minha parte, conheci o texto através de um velho disco de vinil que trazia uma sua leitura (bem careta) por Cid Moreira, o icônico apresentador do “Jornal Nacional” – o que me deixou com um certo ranço do texto. Mais tarde, porém, tive uma impressão bem positiva do poema com a leitura de “A Viagem de Théo” (1998), o livro de Catherine Clément que está para as religiões e a história das religiões como o mais conhecido “O Mundo de Sofia” (1991), de Jostein Gaarder, está para a filosofia. Clément termina seu belíssimo livro com “Desiderata”. É curioso e interessante como o contexto em que um texto se encontra transforma sua percepção pelo leitor.

Hecker Filho ainda reproduz a antiga crença de que o poema, de autor desconhecido, teria sido encontrado em uma igreja de Baltimore em 1692. Hoje se sabe que não: “Desiderata” foi escrita pelo poeta americano Max Ehrmann em 1927. O mal-entendido nasceu porque um folheto da igreja trazia a data de sua fundação - 1692. Ah! E se durante tua leitura ecoar uma canção de Renato Russo num canto da mente, não será mera coincidência – vários de seus versos são usados em “Há Tempos”, a música de abertura de “As Quatro Estações”, o álbum da Legião Urbana de 1989.

“Desiderata

Ide tranquilamente entre o tumulto e a pressa e lembrai-vos da paz que pode existir no silêncio. Sem alienação, vivei tanto quanto possível em bons termos com todas as pessoas. Dizei calma e claramente vossa verdade, e ouvi os outros, mesmo o pobre de espírito e o ignorante; eles também têm sua história. Evitai os indivíduos barulhentos e agressivos, eles são um insulto para o espírito. Não vos compareis com ninguém: correríeis o risco de vos tornar vaidosos. Sempre há alguém maior e menor que vós...

Desfrutai vossos projetos assim como vossas realizações, sede sempre interessados em vossa carreira, por mais modesta que seja: é uma verdadeira posse nas prosperidades mutáveis do tempo. Sede prudentes em vossos negócios, porque o mundo está cheio de malícias.

Mas não sejais cegos no que concerne à virtude que existe: vários indivíduos buscam os grandes ideais e em toda parte a vida é repleta de heroísmo. Sede vós mesmos. Sobretudo não simuleis a amizade! Tampouco sede cínicos no amor, porque em face de qualquer esterilidade e de qualquer desencanto ele é tão eterno quanto a relva...

Aceitai com bondade o conselho dos anos renunciando com graça a vossa juventude. Fortalecei a prudência de espírito para vos proteger em caso de infortúnio repentino. Mas não vos aborreçais com quimeras! Numerosos temores nascem da fadiga e da solidão... Para lá de uma disciplina sadia, sede ternos convosco mesmos. Sois filhos do universo, tanto quanto as árvores e as estrelas: tendes o direito de estar aqui...

E, percebais ou não, o universo se desenrola sem dúvida como deveria. Estai em paz com Deus, qualquer que seja vossa concepção dele e, quaisquer que sejam vossas obras e vossos sonhos, guardai no desconcerto ruidoso da vida a paz em vossa alma. Com todas as suas perfídias, as suas tarefas fastidiosas e os seus sonhos desfeitos, o mundo é belo! Prestai atenção... Tratai de ser felizes.”

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