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Expressão Plural

Inverno, uma sabedoria lenta (habitação)

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Como se vive dentro de um inverno? Há muitas maneiras de se atravessar uma estação. Podemos simplesmente esperar que ela passe. Observá-la pela janela. Sofrê-la? Podemos escutá-la, como tentei fazer há duas semanas neste espaço: o inverno como um acontecimento cósmico e ético. Podemos reencontrá-la nas músicas e nas memórias, como fiz na semana passada: o inverno vivido como paisagem cultural. Canções, palas, cafés, chuvas e ventos constituindo um inventário gélido, uma biblioteca afetiva do frio sulino. Ou podemos escolher um caminho mais lento: caminhar ao lado dela, folha por folha, dia após dia, até que já não saibamos muito bem onde termina o inverno e onde começamos nós.

No solstício de inverno, comecei a reler o primeiro volume de Game of Thrones, as “crônicas de gelo e fogo” de George R. R. Martin. Não muito: uma ou duas folhas por dia. Como um gesto de recolhimento, uma puxada de cobertas. Uma flor lilás caída na calçada molhada. Uma meditação. Nas primeiras páginas, fiz um chocolate quente e, enquanto a neve caía sobre a Muralha, senti que aquele frio imaginário encontrava o frio da manhã. É que, a essa altura o caro leitor/a já terá percebido, existem livros que foram feitos para serem habitados. Note: a habitação é para além da leitura.

Terminada a breve leitura, encontrei, folheando o livro, um marcador de páginas com um poema escrito por um certo Mário Albuquerque: “E não é que este inverno e suas folhas/ Me apanharam um pouco assim/ Sem caber direito em mim?/ Sei lá.../ Um tanto Jon Snow/ Meio Bakunin.” Não lhes parece um texto precioso? A abertura é excelente. Tem uma coloquialidade aberta, quase uma conversa consigo mesmo. E o legal é que as ‘folhas”, ‘suas folhas’, são uma expressão ambígua: são as folhas do livro, as folhas que caem, as folhas do calendário, as páginas do inverno? A polissemia trabalha a favor do poema.

O verso ‘me apanharam um pouco assim’ parece ser vago de propósito, e acho que funciona bem. Ele não define inteiramente a experiência, apenas a aponta. Tem uma honestidade afetiva ali, o que é ótimo. O ‘sem caber direito em mim’ talvez seja o verso mais forte, porque exprime uma coisa que todo mundo já sentiu diante de invernos, livros, músicas, filmes e cachaças artesanais: a sensação de estar deslocado de si mesmo, ampliado além das próprias bordas. E, então, vem uma guinada: aquele “sei lá...” é bem bom, também. É quase um encolher de ombros filosófico. Quebra qualquer solenidade excessiva, como se dissesse: o inverno já é solene demais, o poema não precisa ser.

O último verso, “um tanto Jon Snow/ Meio Bakunin”, é uma imagem surpreendentemente boa.” Jon Snow é o homem da fronteira, do frio, da vigília, da travessia, alguém que vive entre mundos e nunca cabe inteiramente em nenhum deles. É um bastardo – e não é. Mikhail Bakunin é o impulso de liberdade, a recusa das estruturas demasiadamente rígidas, a errância, a inquietação. Tem ainda um detalhe interessante: os dois personagens compartilham uma certa condição de liminaridade. John Snow é um sujeito entre pertencimentos diferentes; Bakunin, um “anarquista noturno”, um homem contra os pertencimentos que se tornam prisões. Então: o que é que ‘não cabe direito’ em nós?

Pronto: eu só queria um chocolate quente e dar uma “enfeitada literária” em uma manhã fria, e acabei ganhando uma sessão de terapia. Mas, agora eu estava deliberadamente entrando no inverno, e não só sendo arrastado por ele. Eu era alguém milongueando sonhos à beira da Muralha, aquecendo as mãos numa caneca rústica, num tempo sem tempo. Como se o próprio inverno, aos poucos, me alfabetizasse em sua sabedoria lenta.

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