Há alguns dias, arrumando livros, papéis e outras arqueologias em casa, reencontrei um caderno dos tempos da Quarentena. Era meu Livro dos Sonhos, iniciado por sugestão do neurocientista Sidarta Ribeiro, que recomendava manter um caderno ao lado da cama e registrar os sonhos antes que se evaporassem à luz do dia. Eu não buscava premonições nem a decifração de símbolos; queria só preservar aquelas narrativas noturnas que, segundo Ribeiro, constituem um trabalho criativo da mente sobre memórias, desejos, angústias e expectativas – e, mesmo, um oráculo. Um “oráculo probabilístico”, um instrumento da evolução da vida na Terra.
Numa de suas páginas, estará lembrado o leitor/a que acompanha esta coluna, eu me encontrava em uma espécie de biblioteca infinita, investigando o desaparecimento de um rapaz desconhecido a partir de anotações que ele havia deixado em sua mesa sobre o livro que estivera lendo. Em determinado momento, eu dizia que tudo aquilo não fazia sentido. Um homem à minha frente, plausivelmente uma autoridade ali, respondeu com estranheza: "Sentido? Essa palavra não existe."
Nossos sonhos, segundo Sidarta Ribeiro, não são propriamente um enigma a ser resolvido, uma mensagem codificada, mas, antes, uma reorganização criativa de experiências, memórias e investigações. Quando perguntamo-nos o que significam os sonhos tal como os lembramos, ou quando refletimos sobre o porquê de aquele conteúdo e imagens estarem lá, acompanhando-nos em nosso sono, seria importante não oferecer interpretações definitivas, e sim salvaguardar a complexidade da narrativa. No caso de meu sonho, acho que posso dizer, retrospectivamente, que o elemento mais inquietante foi imaginar um lugar em que a palavra “sentido” não existe. Significado, direção, orientação, propósito: tudo o que está dentro da palavra “sentido” não existia ali. Naquela biblioteca sem estantes, sem janelas e sem portas, era como se eu estivesse me perguntando: “É possível que livros circulem, que pessoas leiam e escrevam, que haja produção e acumulação de conhecimento e, ainda assim, perder-se o sentido?
Não, eu não quero ser moralista e nem transformar a reflexão em crítica à universidade ou à cultura contemporânea (embora as alusões estejam disponíveis para o caro leitor/a). A hipótese inversa, a de que as pessoas naquela biblioteca desconheciam a palavra “sentido” não porque naquele universo nada fizesse sentido, mas porque eram vítimas inconscientes de excesso de sentido, é certamente interessante. Aquela sala infinita era uma biblioteca reduzida à sua função burocrática. Uma espécie de cartório. Livros circulam, leitores trabalham, anotações são produzidas, mas ninguém parece perguntar para quê. O meu sonho, talvez, estivesse fazendo uma oposição entre dois modos de leitura. De um lado, leitura extensiva, acumulação, fichamentos, circulação infinita de livros. De outro – e isto é o que faltava ali -, compreensão, mergulho, transformação. Sentido! Livros não são apenas objetos de consumo cultural: devem servir para alguma forma de orientação existencial. O sonho estava dramatizando isso. A instituição lê tudo, mas não compreende nada; produz registros, mas não sabedoria. Não havia naquele lugar leitores – apenas operadores de texto, em algum nível.
De qualquer modo, no fim do sonho havia um retorno ao mundo: o sonho terminava com frio, sobretudo, vento, cheiro de café e a frase “Eu preciso voltar para Erechim." Nenhuma “interpretação definitiva”, nenhuma conclusão metafísica. Nenhum Freud, mas um toque de Jung: um reconhecimento, uma direção. Talvez o sentido não seja uma explicação – de novo - definitiva para a loucura do mundo, nem uma resposta capaz de resolver todos os enigmas da existência. Talvez seja algo muito mais simples: uma caminho quando estamos perdidos; uma porta que se abre; uma xícara de café. E, “se Deus não achar muito” (César Passarinho), uma casa para a qual desejemos voltar.