A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação do uso da tirzepatida, vendida como Mounjaro, para crianças e adolescentes de 10 a 17 anos com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. A decisão, publicada no fim de abril, marca um avanço no tratamento da doença, que vem atingindo cada vez mais jovens.
Segundo especialistas, o aumento dos casos está ligado à alta da obesidade infantil, ao sedentarismo e às mudanças nos hábitos alimentares nas últimas décadas. O diabetes tipo 2 é uma condição crônica em que o organismo passa a ter dificuldade para usar e, em alguns casos, produzir insulina, responsável pelo controle da glicose no sangue.
Como o medicamento atua no organismo
A tirzepatida imita dois hormônios intestinais, GIP e GLP-1, que ajudam a controlar a glicemia e a sensação de saciedade. O medicamento aumenta a produção de insulina, reduz o glucagon e melhora a sensibilidade à insulina, além de diminuir o apetite. Em adolescentes com diabetes tipo 2, isso se traduz em controle da glicose e redução do peso corporal, fatores-chave na evolução da doença.
Evidências científicas sustentam aprovação
A decisão da Anvisa foi embasada nos resultados do estudo SURPASS-PEDS, publicado no fim de 2025 na revista The Lancet. Trata-se de um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado padrão-ouro na avaliação de medicamentos.
O estudo acompanhou crianças e adolescentes de 10 a 17 anos com diabetes tipo 2 de início precoce e controle glicêmico inadequado, mesmo em uso de metformina e/ou insulina basal. Os resultados indicaram redução média de 2,23% na hemoglobina glicada no grupo tratado, enquanto no grupo placebo houve leve aumento de 0,05%.
Também foi observada redução média de 11% do peso corporal em 30 semanas de tratamento. Segundo especialistas, os achados podem representar uma mudança relevante no manejo da doença, com potencial para reduzir o risco de complicações precoces associadas ao diabetes tipo 2.
Efeitos colaterais e contraindicações
Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Em geral, foram leves ou moderados, surgindo principalmente durante o aumento gradual das doses e tendendo a diminuir com a continuidade do tratamento. Apenas 6% dos participantes interromperam o uso por eventos adversos.
A tirzepatida é contraindicada para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e para pacientes com síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
Entre os riscos menos frequentes estão pancreatite aguda e um leve aumento da chance de doenças da vesícula e das vias biliares. O medicamento também pode retardar o esvaziamento gástrico, o que pode reduzir a eficácia de contraceptivos orais.
Tratamento complementar e uso responsável
A autorização do medicamento não se aplica a todas as crianças com diabetes tipo 2, sendo indicada apenas para pacientes de 10 a 17 anos com a doença associada ao sobrepeso ou à obesidade, conforme critérios de estudos clínicos. A indicação não deve ser estendida a jovens com obesidade sem diabetes. O tratamento não substitui mudanças no estilo de vida e ainda não está disponível no SUS e na rede privada, o custo pode ser um obstáculo.
Médicos alertam para riscos do uso estético, que pode afetar crescimento, nutrição e saúde mental. Embora eficaz no controle do diabetes e da obesidade, os efeitos a longo prazo seguem sendo monitorados, e o uso deve equilibrar riscos e benefícios.