Há uma diferença entre caminhar em um lugar
e atravessá-lo.
Quem atravessa quer chegar ao outro lado.
O lugar atravessado é passagem, é atalho,
convertido em distância a ser vencida
no menor tempo ao menor custo.
Quem caminha num lugar já chegou onde queria.
Está aqui. Agora.
O lugar não é meio para um fim,
é o fim, é o estar presente aqui,
é a forma que o tempo toma
quando a gente para de fugir dele.
Olhar no olho de alguém e falar seu nome
é um ato que não se resume a comunicação,
é oração no sentido mais antigo:
é invocar a presença,
é dizer “tu existes e eu te reconheço”,
é criar entre dois corpos
um campo onde nenhum está sozinho.
A Palavra, antes de informar, habita.
Antes de descrever, cria o lar.
Nejar sabia que a maioria dos homens atravessa
em vez de caminhar,
que a maioria das vidas são vividas
na superfície dos lugares
que deveriam ser coabitados em profundidade.
Porque quem não sabe o nome de um lugar,
ou de um alguém,
não se importa.
E quem não se importa,
esquece
e o esquecimento é sempre abandono.
O Campo Pequeno ensina o mesmo
àqueles dispostos a aprender,
porque somos treinados desde cedo à
atravessar em vez de caminhar,
progredir em vez de aprofundar,
acumular experiências de lugares diferentes
em vez de mergulhar
num único lugar por inteiro.
A defesa mais prosaica e mais segura
é a do cuidado diário.
Esse cuidado nasce do amor.
E o amor, esse tipo de amor,
nasce do nome.
Só quem ama nomeia com cuidado.
Pais que não dão nome ao filho
o excluem da comunhão antes que ele chegue,
porque sem nome não há como ser chamado,
e sem ser chamado
não há como pertencer.
O nome não antecede o amor.
É o amor que assume a forma de fonemas,
de sílaba pronunciada,
de voz que cruza o ar entre corpos
e cria, por um instante,
um invólucro comum.
Dar nome a uma coisa
é o primeiro ato de responsabilidade por ela.
Antes de qualquer argumento, antes de qualquer lei,
foi pelo soprar do nome que a terra se tornou humano
porque nomear não é descrever,
é convocar à existência.
O nome não pertence a quem o pronuncia.
Pertence ao que foi nomeado.
E quando o nome some,
some com ele o que havia de sagrado
no ato primordial de ter sido chamado.
Humano vem de húmus,
o humano feito da terra,
irmão do que apodreceu
e do que ainda vai germinar.
Não é metáfora.
É a mais antiga afirmação de parentesco
entre a gente e o chão que nos sustenta.
Tirar o nome de um lugar
é negar esse parentesco,
é cortar o cordão umbilical
entre o habitante e o lugar que o deu à luz.
Não é por acaso que os que chegam para explorar
sempre começam por tirar os nomes dos lugares.
A estrada federal não tem nome, tem número.
O lote de terra na escritura
é identificado por coordenadas geográficas.
A numeração é eficiente.
A eficiência é uma forma de esquecimento.
O esquecimento é uma forma de roubo.
Quem retira o nome não apenas apaga uma palavra,
rompe a palavra que une as pessoas e o lugar.
E onde a palavra cessa,
instala-se uma forma silenciosa de guerra.
Não a guerra dos tiros,
mas a da indiferença,
o estado em que dois lados
simplesmente deixam de se dirigir um ao outro
como se o outro não existisse.
O sem nome é aquele
com quem ninguém mais conversa.
E o silêncio forçado, como toda doença da linguagem,
não é apenas tristeza,
é a antessala da violência.
No mundo moderno somos todos passageiros.
Turistas que estão sempre passando.
Não lembramos dos nomes,
a memória é negligenciada.
O esquecimento avança.
Avança quando o adolescente de quinze anos
olha pela janela do carro e vê um campo pequeno
que não lhe diz nada,
não porque o campo seja mudo,
mas porque ninguém lhe ensinou a língua.
Avança quando a história local
é tratada como curiosidade folclórica
em vez de fundamento vivo
do que somos e do que poderíamos ser.
E aqui o esquecimento se torna político
de uma forma que não pode ser ignorada:
porque o que foi esquecido
não é apenas o nome das plantas nativas.
É a memória de quem trabalhou esta terra
sem que seu trabalho fosse reconhecido.
É o nome dos que passaram por aqui
antes dos que chegaram com título de posse.
É a história das comunidades
que foram apagadas não pela guerra
mas pelo silêncio
de quem escrevia os livros de história
e decidiria o que merecia ser lembrado.
Esse esquecimento também tem arquitetura.
Também foi construído por mãos humanas.
Humilde também vem de húmus…
Aderir a terra.
Isso exige humildade que não é fraqueza.
É a humildade de quem sabe
que a terra tem mais história
do que a que cabe no seu próprio umbigo.
Que ser inteiro, juntos,
essa necessidade que não para de insistir
debaixo de todas as nossas divisões,
exige incluir o que foi excluído,
nomear o que foi apagado,
escutar o que foi silenciado.
Porque a língua é mais sábia do que quem a fala.
E o nome sobrevive à morte de quem o nomeou
para que os que vierem depois
saibam que ali havia alguém,
e que esse alguém pertencia
a este chão específico,
a este lugar que tem nome
e que por isso existe.
O silêncio é a forma mais antiga de morte.