21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Opinião

Poesia em Campo Aberto

Esquecimento (Parte 3) - A Carlos Nejar, poeta da Palavra

teste
Natan Fantin
Por Natan Fantin - Professor do Ensino Básico e Escritor; E-mail para contato: natanfantin@gmail.com
Foto Natan Fantin

Há uma diferença entre caminhar em um lugar

e atravessá-lo.

Quem atravessa quer chegar ao outro lado.

O lugar atravessado é passagem, é atalho,

convertido em distância a ser vencida

no menor tempo ao menor custo.

Quem caminha num lugar já chegou onde queria.

Está aqui. Agora.

O lugar não é meio para um fim,

é o fim, é o estar presente aqui,

é a forma que o tempo toma

quando a gente para de fugir dele.

Olhar no olho de alguém e falar seu nome

é um ato que não se resume a comunicação,

é oração no sentido mais antigo:

é invocar a presença,

é dizer “tu existes e eu te reconheço”,

é criar entre dois corpos

um campo onde nenhum está sozinho.

A Palavra, antes de informar, habita.

Antes de descrever, cria o lar.

Nejar sabia que a maioria dos homens atravessa

em vez de caminhar,

que a maioria das vidas são vividas

na superfície dos lugares

que deveriam ser coabitados em profundidade.

Porque quem não sabe o nome de um lugar,

ou de um alguém,

não se importa.

E quem não se importa,

esquece

e o esquecimento é sempre abandono.

O Campo Pequeno ensina o mesmo

àqueles dispostos a aprender,

porque somos treinados desde cedo à

atravessar em vez de caminhar,

progredir em vez de aprofundar,

acumular experiências de lugares diferentes

em vez de mergulhar

num único lugar por inteiro.

A defesa mais prosaica e mais segura

é a do cuidado diário.

Esse cuidado nasce do amor.

E o amor, esse tipo de amor,

nasce do nome.

Só quem ama nomeia com cuidado.

Pais que não dão nome ao filho

o excluem da comunhão antes que ele chegue,

porque sem nome não há como ser chamado,

e sem ser chamado

não há como pertencer.

O nome não antecede o amor.

É o amor que assume a forma de fonemas,

de sílaba pronunciada,

de voz que cruza o ar entre corpos

e cria, por um instante,

um invólucro comum.

Dar nome a uma coisa

é o primeiro ato de responsabilidade por ela.

Antes de qualquer argumento, antes de qualquer lei,

foi pelo soprar do nome que a terra se tornou humano

porque nomear não é descrever,

é convocar à existência.

O nome não pertence a quem o pronuncia.

Pertence ao que foi nomeado.

E quando o nome some,

some com ele o que havia de sagrado

no ato primordial de ter sido chamado.

Humano vem de húmus,

o humano feito da terra,

irmão do que apodreceu

e do que ainda vai germinar.

Não é metáfora.

É a mais antiga afirmação de parentesco

entre a gente e o chão que nos sustenta.

Tirar o nome de um lugar

é negar esse parentesco,

é cortar o cordão umbilical

entre o habitante e o lugar que o deu à luz.

Não é por acaso que os que chegam para explorar

sempre começam por tirar os nomes dos lugares.

A estrada federal não tem nome, tem número.

O lote de terra na escritura

é identificado por coordenadas geográficas.

A numeração é eficiente.

A eficiência é uma forma de esquecimento.

O esquecimento é uma forma de roubo.

Quem retira o nome não apenas apaga uma palavra,

rompe a palavra que une as pessoas e o lugar.

E onde a palavra cessa,

instala-se uma forma silenciosa de guerra.

Não a guerra dos tiros,

mas a da indiferença,

o estado em que dois lados

simplesmente deixam de se dirigir um ao outro

como se o outro não existisse.

O sem nome é aquele

com quem ninguém mais conversa.

E o silêncio forçado, como toda doença da linguagem,

não é apenas tristeza,

é a antessala da violência.

No mundo moderno somos todos passageiros.

Turistas que estão sempre passando.

Não lembramos dos nomes,

a memória é negligenciada.

O esquecimento avança.

Avança quando o adolescente de quinze anos

olha pela janela do carro e vê um campo pequeno

que não lhe diz nada,

não porque o campo seja mudo,

mas porque ninguém lhe ensinou a língua.

Avança quando a história local

é tratada como curiosidade folclórica

em vez de fundamento vivo

do que somos e do que poderíamos ser.

E aqui o esquecimento se torna político

de uma forma que não pode ser ignorada:

porque o que foi esquecido

não é apenas o nome das plantas nativas.

É a memória de quem trabalhou esta terra

sem que seu trabalho fosse reconhecido.

É o nome dos que passaram por aqui

antes dos que chegaram com título de posse.

É a história das comunidades

que foram apagadas não pela guerra

mas pelo silêncio

de quem escrevia os livros de história

e decidiria o que merecia ser lembrado.

Esse esquecimento também tem arquitetura.

Também foi construído por mãos humanas.

Humilde também vem de húmus…

Aderir a terra.

Isso exige humildade que não é fraqueza.

É a humildade de quem sabe

que a terra tem mais história

do que a que cabe no seu próprio umbigo.

Que ser inteiro, juntos,

essa necessidade que não para de insistir

debaixo de todas as nossas divisões,

exige incluir o que foi excluído,

nomear o que foi apagado,

escutar o que foi silenciado.

Porque a língua é mais sábia do que quem a fala.

E o nome sobrevive à morte de quem o nomeou

para que os que vierem depois

saibam que ali havia alguém,

e que esse alguém pertencia

a este chão específico,

a este lugar que tem nome

e que por isso existe.

O silêncio é a forma mais antiga de morte.

;