Em 2002, a Copa do Mundo desembarcou pela primeira vez na Ásia. Mas a definição da sede do primeiro Mundial do século 21 aconteceu seis anos antes, em 1996, e foi uma das mais incomuns da história. Japão e Coreia do Sul, rivais históricos no continente, apresentaram candidaturas separadas e disputavam diretamente o direito de organizar o torneio. Diante da pressão de escolher um em detrimento do outro, o impasse só foi resolvido pelo então presidente da FIFA, João Havelange, que sugeriu dividir a Copa entre os dois países. A decisão marcou a primeira vez que a competição teve dois anfitriões.
A organização refletiu esse modelo. Foram construídos 20 estádios em 20 cidades, sendo dez em cada país, um recorde absoluto. A abertura aconteceu na Coreia do Sul, em Seul, enquanto a final foi disputada no Japão, em Yokohama, simbolizando o equilíbrio da divisão. E, mesmo sendo do outro lado do planeta, com as partidas ocorrendo nas madrugadas e início de manhãs no Brasil, e durante as manhãs na Europa, a audiência televisiva foi alta.
Além do Japão e da Coreia do Sul, participaram da Copa: França, Dinamarca, Espanha, Eslovênia, Turquia, Polônia, Portugal, Alemanha, Irlanda, Inglaterra, Suécia, Itália, Croácia, Bélgica, Rússia, Uruguai, Paraguai, Brasil, Argentina, Equador, Senegal, África do Sul, Camarões, Nigéria, Tunísia, Costa Rica, Estados Unidos, México, China e Arábia Saudita.
O torneio ficou marcado por quedas surpreendentes e campanhas inesperadas. A França, então campeã mundial, foi eliminada ainda na fase de grupos sem marcar um único gol, após derrota para o estreante Senegal. A Argentina, outra favorita, também caiu na primeira fase. Enquanto isso, seleções como Turquia, o próprio Senegal e a Coreia do Sul avançaram de forma histórica. Os turcos retornaram à Copa após 48 anos e foram até a semifinal, encerrando em terceiro lugar. Os senegaleses chegaram até às quartas de final. Já os sul-coreanos também chegaram à semifinal, em um quarto lugar marcado por decisões de arbitragem amplamente contestadas, contra a Itália nas oitavas e a Espanha nas quartas.
Já o Brasil foi ao Mundial cercado de desconfiança. O ciclo foi conturbado, com denúncias envolvendo a CBF, investigações, CPI no Congresso e instabilidade institucional. Dentro de campo, o time teve várias trocas de técnico, passando por Vanderlei Luxemburgo, Emerson Leão e, por fim, Luiz Felipe Scolari, o Felipão. A classificação foi dramática e só veio na última rodada das Eliminatórias, com vitória sobre a Venezuela.
Havia também dúvidas individuais. Ronaldo voltava de grave lesão no joelho que o deixou mais de um ano parado, e era uma incógnita. Ao mesmo tempo, a ausência de Romário, afastado do grupo por quebra de confiança com Felipão, gerou um enorme debate. O treinador apostou em um grupo fechado com suas ideias, que ficaria conhecido como a “Família Scolari”.
Dentro de campo, quem jogou respondeu. Na fase de grupos, o Brasil fez 2 a 1 na Turquia, 4 a 0 na China e 5 a 2 na Costa Rica. Nas oitavas, superou a Bélgica por 2 a 0, em jogo com polêmicas de arbitragem. Nas quartas de final, derrotou a Inglaterra por 2 a 1, com destaque para o gol de falta histórico de Ronaldinho Gaúcho. Na semifinal, reencontrou a Turquia e venceu por 1 a 0.
A final foi disputada contra a Alemanha. O jogo foi equilibrado até Ronaldo aproveitar uma falha do goleiro Oliver Kahn em chute de Rivaldo para abrir o placar. Com mais um gol do camisa 9, o Brasil venceu por 2 a 0 e conquistou o pentacampeonato mundial, a quinta estrela de uma reconstrução em meio ao caos. E, acima de tudo, uma conquista que consagrou a volta por cima de Ronaldo, que virou o Fenômeno.