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Opinião

Poesia em Campo Aberto

Viventes (Parte 2) - À memória de José Hernández

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Natan Fantin
Por Natan Fantin - Professor do Ensino Básico e Escritor; E-mail para contato: natanfantin@gmail.com
Foto Natan Fantin

No pampa do norte há uma história

que raramente se conta assim.

Chegaram colonos descendo a serra

com sementes e santos,

com mortos em outro continente

e vivos precisando de terra.

Havia gente aqui antes.

Gente do campo aberto, do gado, da casa de pau-a-pique.

Que tinha chegado antes.

Sobreposição de chegadas e expropriações,

cada uma com sua justificativa,

cada uma com seu esquecimento conveniente.

Esses colonos trouxeram algo para o qual o alemão tem palavra

que o português não encontra tradução: Heimat.

Não é apenas lar. Não é apenas pátria.

É o lugar que te formou

tão fundo que continua em ti

mesmo quando não estás mais nele.

É onde teu ser tem raiz.

E o que acontece com quem vem de longe,

quem deixou o Heimat da infância

e precisa construir um novo

num chão que não escolheu?

 

Acontece o que sempre acontece.

O tempo e o sofrimento e o sepultar dos mortos

fazem o trabalho que nenhuma escolha faz.

A terra reclama as pessoas.

As pessoas reclamam a terra.

E depois de gerações,

às vezes uma vida simples de atenção e trabalho,

o novo Heimat está formado.

Não porque seja igual.

O pampa do norte não se parece com Hamburgo,

não tem nada do Vêneto.

Mas o amor não exige semelhança.

Exige presença. Exige os anos acumulados

em conhecimento da terra, em responsabilidade,

em dor pelo que o lugar sofre

e alegria pelo que dá.

O talian ficou como prova disso.

Não o italiano de Roma ou de Florença, língua de prestígio poético e jurídico.

O talian que nasceu aqui do encontro

entre os dialetos vênetos e trentinos

e o português que já estava por essas paragens.

Uma língua que não existe em nenhum outro lugar

porque nasceu desse chão,

desse encontro.

Esse Heimat construído a custo

não pertencia apenas a um povo.

O gaúcho do campo aberto,

o descendente de escravizados

que conhecia cada palmo da terra que trabalhava sem possuir,

o caboclo da beira do arroio,

o descendente de imigrante que finalmente tinha sua gleba,

todos construíam, à sua maneira,

nas condições que lhes eram dadas,

uma relação com essa terra que era mais do que econômica.

Era um modo de ser.

Uma forma de pertencer.

Há uma imagem que carrego:

o gaúcho solitário abrigado pelo poncho de lã,

tomando chimarrão, os olhos postos no horizonte

sob o céu azul do Rio Grande.

Hernández reconheceu essa figura e lhe deu voz:

Soy gaucho, y entiéndanló como mi lengua lo esplica;

e não há ornamento nessa declaração.

Poucos elementos, nenhum desnecessário.

O frio não o permite.

No Sul é preciso ir direto ao ponto.

É o mesmo rigor de quem:

se sienta en el plan de un bajo a cantar un argumento

como si soplara el viento hago tiritar los pastos;

dois elementos apenas, nenhuma palavra a mais.

Rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza, melancolia

não são adjetivos condescendentes.

São o que o frio e o horizonte aberto

fazem com quem os habita de verdade.

São o que a planície faz com a língua

de quem aprende, antes de qualquer outra coisa,

que para mí la tierra es chica y pudiera ser mayor,

que o campo sob os pés é pequeno

não porque seja pobre,

mas porque o olhar que ele formou

é capaz de conter o mundo inteiro

sem precisar sair do lugar.

Mas esse Heimat o século XX destruiu

com uma eficiência que nenhum invasor supera.

Não precisou de exército.

Precisou apenas de filhos que a escola convenceu

de que o saber da terra não era saber de verdade.

E assim o Heimat foi se esvaziando.

As casas de madeira envelheceram.

Os pomares foram abandonados.

Os engenhos pararam.

Ficou uma paisagem linda do ponto de vista estético,

trágica do ponto de vista humano,

bela demais para fotografar,

vazia demais para habitar.

Os expropriados de sempre

são frequentemente os que mais sabem

sobre o lugar de onde foram expulsos.

Quando esse saber se perde,

perde-se uma forma de estar no mundo

que a terra precisava

tanto quanto as pessoas que a habitavam.

O chão tem nome.

Aprender o nome do teu chão é o começo.

Perguntar quem não pôde nomeá-lo é o passo seguinte.

O resto é trabalho de uma vida

que é, se houver atenção suficiente,

exatamente o tempo que nos resta.

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