Minha melhor amiga é uma das pessoas mais brilhantes que conheço e ontem, como quem não quer nada, constatou algo muito significativo sobre o meu processo de escrita: é agridoce no sentido de que causa prazer e amargura ao mesmo tempo, assim como um bom mate argentino de manhã. Passei algumas horas a fio pensando sobre essa que talvez seja a análise mais profunda, poética e verdadeira já feita sobre os emaranhados de palavras que escrevo.
Já houveram outras análises também, numa delas alguém disse que meu repertório é limitado, nenhum jornal publicaria colunas sobre chimarrão toda semana. Mas acontece que de onde venho existe uma superstição quase divina sobre o momento da vida em que un pibe pasa a tomar solito sus mates. De onde venho, é nesse momento em que o amargo da vida se escancara tal qual um mate pura folha. E veja, querido leitor, o amargo da vida não é sobre angústias, tristezas e dores se não antes sobre como sustentar corajosamente de peito aberto o gosto completamente inteiro das coisas.
É agridoce porque há um ponto em que a varanda da casa verde do meu pai se esvazia, as vozes cessam e o que resta é o peso amargo de tudo que há para sentir. É nesse ponto em que a gente se encontra consigo mesmo, sem o alívio da conversa, sem o intervalo entre uma mão e outra. É ali que o mate, antes compartilhado, deixa de ser coletivo e passa a ser íntimo e intransferível. É nesse momento em que a vida bate à porta e senta contigo numa tarde de chuva onde os únicos sons que se podem ouvir são o ronco da cuia e do céu e, vez ou outra, o choro desesperado de quem espera por aquilo que nunca mais voltará.
Talvez seja por isso que escrevo de forma quase divina sobre algo tão trivial na minha terra, querido leitor. Peço as mais sinceras desculpas se minha escrita não circula leve, se ela permanece, insiste, arde. Se carrega esse gosto que desce rasgando as paredes do estômago, que vez ou outra aquece, pesa, mas nunca fica completamente doce. Há um certo prazer em encontrar a palavra exata, como quem acerta a temperatura da água, mas há também algo de inevitavelmente amargo em tudo que crio coragem de escrever com verdade para que tu leias agora.
E se meu repertório parece limitado, talvez seja porque eu ainda esteja sentada na mesma cadeira de madeira com estofado vermelho na varanda em que aprendi a tomar meus mates, repetindo o gesto de preparar o velho porongo com a erva para receber a água, tentando entender, a cada gole, o que exatamente significa crescer. Porque crescer, afinal, deve ser aprender a sustentar sozinha aquilo que antes era partilhado, é aceitar que certas coisas realmente perdem a ternura no caminho, com todos os estilhaços da vida e, ainda assim, seguem sendo inteiras e absolutamente nossas.
Veja, querido leitor, talvez exista de fato uma espécie de ritual silencioso nisso de sentar sozinha para matear, algo que não se aprende com ninguém, mas que se repete como herança de um velho ervateiro que se foi cedo demais. E assim como o primeiro mate tomado sozinha não vem com aviso, a escrita também não pede licença; quando a gente menos espera, já está ali, sustentando o calor da água nas mãos e o peso das próprias palavras... no peito.