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Opinião

Sabedoria

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Na última semana, ao final da aula, o mestre fez uma pergunta simples, “o que é sabedoria?” Não era um questionamento que veio “do nada”, afinal, desde o início do ano, alunos de todas as idades vêm sendo convidados a trabalhar e a refletir sobre esse conceito. Ainda assim, confesso, que fui pego de surpresa e minha resposta inicial foi “acredito que seja um conjunto de coisas”. Tentei desenvolver um raciocínio rápido, mas a verdade é que a palavra é um tanto quanto complexa, conta com inúmeras camadas e talvez não exista uma explicação única ou definitiva que a abranja por completo.

Em uma breve pesquisa no dicionário e afins, fala-se de sabedoria como um conhecimento profundo aliado ao bom senso, à prudência, à capacidade de transformar experiência em decisão equilibrada. Não se trata apenas de acumular informações, mas de saber utilizá-las com discernimento e há, ainda, uma certa sensibilidade nisso tudo, pois a origem latina sapere remete tanto ao saber quanto ao sentir, ao perceber o mundo com um toque de delicadeza. No campo espiritual, a ideia está associada a uma orientação moral que ultrapassa o visível.

Então, como eu havia dito, acredito ser esse conjunto de coisas. Sabedoria está em ouvir e, sobretudo, em saber escutar, em filtrar o que chega até nós, tanto para o bem, quanto para o mal. Está em compreender quando e como agir, em saber respeitar ao outro e a si mesmo e na habilidade de se expressar com clareza sem ignorar o contexto ou quem está do outro lado. É também ter a consciência de que o aprendizado não respeita uma hierarquia, ele não é exatamente linear, ele pode vir de quem já viveu muito, mas também de quem mal começou. Supor que a idade é um determinante de sabedoria é um engano bastante limitador, afinal, podemos sim, aprender com pessoas mais novas, com menos experiência de vida e que nem sempre quem é mais velho sabe tudo. Sabedoria também é entender o momento de jogar a toalha, de parar, de aceitar aquilo que não pode ser mudado.

O próximo passo foi para citar um exemplo marcante de sabedoria e nesse momento, recorri, quase automaticamente, a uma lembrança com meu pai e que foi de extrema importância para a minha vida. Foi o que me veio à mente, de forma rápida e, certamente, menos emotiva para o momento, mas a verdade é que os dois maiores e mais marcantes exemplos de sabedoria não vieram de pessoas mais velhas, com mais experiências e vivências, mas de pessoas mais novas, uma que não teve a oportunidade de começar a vida fora do útero e a outra, recém começando a vida.

Venho de uma família bastante católica, sou batizado, frequentei e concluí a catequese, mas confesso que foi mais por obrigação. Talvez nem a igreja, nem meus pais, tenham sabido me transmitir, com sabedoria, a importância da fé. Sempre foi algo imposto, obrigatório, e nunca funcionou, o que me fazia, por diversos motivos, questionar a existência de um Deus. A gente vai crescendo, amadurecendo, vivenciando novas experiências, culturas e até religiões, e passa a ter uma visão mais ampla do mundo, com mais sabedoria para absorver o que de fato nos preenche, importa e faz bem.

Eu sempre quis ser pai, esse sempre foi o meu maior sonho e hoje entendo que também é a minha maior missão. Por muito tempo, isso pareceu impossível, um dos motivos que me levavam a questionar muitas coisas, afinal, enquanto muitos fingem ser pais, abandonam, maltratam e até matam seus filhos, eu, que sempre quis tanto, não conseguia. E, de repente, depois de um árduo caminho, aos 33 anos, um resultado positivo mudou a minha vida. E como mudou, logo descobrimos que aquele positivo não era apenas uma, mas duas vidas a caminho e eu que duvidava que um dia seria pai, de repente, era pai de gêmeos. Então, milagrosamente, passei a ter fé? Não.

A felicidade não cabia no peito e em meio à euforia, veio o medo. Um dos bebês, o Gael, apresentava uma cardiopatia congênita, um Defeito no Septo Atrioventricular Total (DSAVT) e, devido a esta cardiopatia específica e uma translucência nucal, que é a medição do acúmulo de líquido na nuca do feto, feita de forma equivocada, uma possível Síndrome de Down. Nesse processo também houve encontros com profissionais que, apesar de alguma técnica, pareciam carecer de humanidade, então foi ali que compreendi o óbvio, que o ego é um câncer maligno e em alguns profissionais já é metástase, não tem o que fazer. E a sabedoria que tirei disso tudo é que existem muitas coisas acima da técnica.

Gael chegou ao mundo, literalmente de peito aberto, com o coração inteiro, sem divisões e, foi esse pequeno ser que, mesmo sem nenhuma palavra, olhar ou um toque, me ensinou a maior das lições de sabedoria, que é a fé para além de uma nomenclatura religiosa, a fé em mim mesmo e em algo muito maior. Uma espiritualidade genuína que sustenta mesmo quando não há garantias. Pode ser que nesse momento eu estivesse mais aberto a entender e a aceitar isso? Com certeza. Como eu disse lá no início, sabedoria é um conjunto de coisas, mas não muda o fato de que foi ele quem me mostrou isso.

Rezei muito durante a gestação, me apeguei a santos católicos, ao espiritismo, a umbanda, a ciência, a absolutamente tudo para salvar a vida do meu filho. Pedi que ele fosse curado sem precisar passar por cirurgia, que o coração dele se fechasse sozinho, mas que se fosse necessária, que desse tudo certo. Tive medo da Síndrome de Down? Tive, porque vejo a crueldade humana todos os dias, mas sempre deixei claro o quanto ele seria amado, protegido e estimulado. Gael não ficou e, ainda assim, o que ele deixou não se perdeu. Ao contrário do que muitos poderiam supor, minha fé não se desfez, se transformou. É uma lição de sabedoria que ficará em mim e se eu puder passar a diante, me sentirei muito feliz, grato e sei que o legado dele, mesmo nesse curto espaço de tempo, segue adiante.

Ao lado dele, veio Miguel, saudável, cheio de vida e, com ele, outros aprendizados. Penso, às vezes, no vínculo que se construiu dentro do útero, em como eles se entendiam e interagiam e como foi, de repente, depois dessa convivência constante, ficar três semanas chamando e não ter uma resposta, porque o irmão estava ali sem estar. Deve ter sido no mínimo desesperador e Miguel viveu isso. Não sei o que se guarda dessa experiência ao nascer, mas imaginar já é suficiente para provocar um certo pavor. Miguel, a partir dali já me ensinava com sabedoria a ser forte.

Nos primeiros minutos de vida, mais um susto, uma respiração irregular e uma possibilidade de ser levado para a UTI. Naquele momento, uma prima médica, que a nosso pedido pode assistir ao parto, estava ali e não conseguia olhar nos meus olhos, só olhava para o aparelho, eu comecei a entrar em pânico. Eu sabia que eu já havia deixado um filho na sala de parto, os dois, eu não aguentaria, eu iria junto. Quando finalmente pude tocá-lo, uma das mãos pus sobre seu peito e com a outra, segurei a mãozinha dele, que agarrou meu dedo e repeti palavras que já faziam parte da nossa rotina antes mesmo de ele nascer, “filho, está tudo bem, vai ficar tudo bem, papai está aqui. Te amo!” e acrescentei “respira”. Assim que terminei de falar, os números do aparelho mudaram até se ajustar ao esperado, ele não foi levado a UTI e ficou tudo bem, como se, de alguma forma, ele reconhecesse não só a voz, mas tudo o que vinha junto com ela. Miguel ali me provou por A + B que eles escutam tudo o que falamos com eles durante a gestação e reconhecem a nossa voz, o nosso tom e absorvem lições preciosas desde então. Miguel, nesse pouco tempo, me ensinou a ser forte, corajoso e a jamais desistir da vida, mesmo nas piores adversidades. Miguel me ensina a pisar no freio e a acelerar, me ensina a amar e a compreender, me ensina o tempo certo de cada passo, me ensina a ouvir e a falar.

Meus filhos, cada um do seu jeito, no seu tempo e com suas missões me passaram e me passam diariamente grandes lições de sabedoria. Junto com todos os acontecimentos, eles me ensinam todos os dias que, talvez, sabedoria seja justamente essa capacidade de acolher a vida como ela se apresenta, de encontrar um sentido mesmo quando parece não ter nenhum. Seja aceitar o que não pode ser mudado, mas sem deixar de transformar o que está ao nosso alcance. E, sobretudo, de caminhar com um olhar mais atento, mais sensível, como quem aprende, todos os dias, a dar significado, voz e vez ao que se vive.

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