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Expressão Plural

Sobre a Internet e as Redes Sociais

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Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Eu ando dando uma lida em altas literaturas aí para recolher apontamentos das diversas formulações de uma ideia cara às tradições de pensamento religioso e filosófico oriental - a de que se deve trabalhar sem cultivar-se qualquer expectativa em relação aos resultados do trabalho (a ideia, contrária à ideologia coach, é um dos pilares fundamentais do pensamento oriental, aparecendo por exemplo no Tao Te King e no Bahagavad Gita).

            É que eu estou interessado, por várias razões, em qualificar a noção de que é possível que nos posicionemos em um "lugar" além do vencer e do perder, além da derrota e da vitória. Vencer ou perder uma discussão, perder ou vencer um jogo, vencer ou perder uma luta... Aquela ideia parece dizer respeito, em parte e de algum modo, à coisa de que tudo o que há para se fazer é viver de modo a agir no mundo sem faltas e sem sobras - restando a vitória ou a derrota como algo meramente circunstancial e/ou mesmo inteiramente destituído de sentido em si mesmas.

            Entre dois litigantes, por exemplo, a eventual capacidade de um deles em "ler" a situação de um modo mais agudo, refinado, profundo e amplo - o que pode situá-lo em um contexto maior de cooperação -, talvez anule o litígio antes mesmo de começar. “Vencer sem desembainhar a espada”, como escreve Sun Tzu em “A Arte da Guerra”. Isso me levou a três coisas: (1) O quinto dois "8 versos que transformam a mente", de Geshe Langri Tangpa (1054-1123), os quais o Dalai Lama diz ler todos os dias: "Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa/ Ou a insultarem e caluniarem/ Vou aprender a aceitar a derrota/ E a eles oferecer a vitória." É como se disséssemos - havendo vislumbrado aquele quadro mais amplo: tu queres me vencer nessa discussão, nesse embate? Não seja por isso, nem se dê ao trabalho: eu te ofereço a vitória (uma vez que não se trata disso) agora mesmo.

            (2) Em "A origem do Dragão", o filme, o monge que vem da China para os Estados Unidos em 1964 encontrar-se com Bruce Lee acaba tendo de enfrentá-lo em uma luta. A luta empata, mas o crime organizado exige que alguém reconheça a derrota - uma vez que houve muitos milhares de dólares envolvidos em apostas. O monge diz: "O que eu desejava era que Lee modificasse, ampliasse sua visão. Seu eu "perdi" a luta e ele fez isso, eu ganhei. Mas se eu "ganhei" a luta e ele permaneceu com a visão estreita como estava, eu perdi." Perceba-se como essa perspectiva é verdadeiramente revolucionária no sentido de desafiar uma cultura inteira, a estado-unidense e crescentemente a ocidental - baseada em "winners" e "losers".

(3) Lembrei também de nosso escritor Sergio Faraco - tido e havido como um dos maiores contistas vivos da literatura brasileira: ele publicou nos anos 80 um livro sobre a Inconfidência Mineira que foi duramente criticado. Ele mesmo diz: houve  cento e uma críticas. Perguntado sobre o caso, dá de ombros: "Eu fiz o melhor que eu pude; escrevi o livro que quis. As críticas não me dizem respeito. Poderiam ser cento e um elogios, e nada mudaria."

            Mas não era nada disso o que eu queria dizer. É que, tomando aqueles apontamentos na literatura, me deparei com um comentário a um texto taoísta clássico que dialoga com nosso tempo, com o que a Internet e as Redes Sociais podem estar fazendo conosco (e eu não sou um "catastrofista") - e é algo que pode ter escapado ao Bauman: "a comunidade não é um torneio de eloquência; a comunidade não é uma sociedade de debates." Não é, mas nós estamos fazendo com que seja. E dá-lhe competição no varejo e no atacado, no micro e no macro, em todas as direções, um deus-nos-acuda, uma cacofonia de vozes, bits e bytes que vai nos levar diretamente para o inferno.

            Isso tudo, é certo, não extingue a necessidade de lutar ("Don't give up the fight"...), mas eleva o espírito do guerreiro a um patamar mais elevado, a uma posição de lucidez - como o personagem Espada Quebrada de “Herói”, de Zhang Yimou. Não é pouco.

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