Hoje eu trago, desde o “Qi Journal”, uma expressão clássica do idioma chinês para a consideração do caro leitor/a: “Liúyán zhi yú zhìzhe”, que pode ser traduzida como “Rumores param no sábio” – “Rumours stop with the wise”. Significaria, segundo a publicação, que indivíduos sábios, devido a seu discernimento e (mais) clara compreensão, não seriam facilmente “balançados” por informação falsa ou errônea. Em vez de espalhar os rumores, tais indivíduos analisariam a situação e procurariam a verdade, impedindo, efetivamente, que a desinformação “ganhe tração”.
A publicação traz ainda a ideia de que em tempos de mídias sociais, quando a informação – tanto a verdadeira como a falsa – pode ser difundida rapidamente, “rumores para no sábio” possui uma especial relevância. “Desinformação, fake news e rumores podem ter efeitos devastadores sobre indivíduos, comunidades e até mesmo nações”. Assim, a expressão nos lembraria da importância da sabedoria, do pensamento crítico e da comunicação responsável no mundo de hoje – o que, se repararmos bem, perfaz toda uma agenda, todo um programa, inclusive educacional.
Legal, não é? Proponho, contudo, que, uma vez feitas as ilações essenciais, exploremos um pouco mais a potencialidade da expressão. Pensemos no verbo “parar”, utilizado nela: os rumores param com sábio, com o sábio. Podemos visualizar uma pessoa, uma mulher ou um homem examinando um papel que lhe chegou às mãos, trazendo um rumor, um boato, uma fofoca. Ela/e para e lê. Temos aqui um primeiro “tempo” de desaceleração do rumor – ele já perde energia cinética, por assim dizer. Ele foi “parado”. Depois, o “discernimento” e a “clara compreensão”, o trabalho de “análise” e de “procura da verdade” – um compromisso com a verdade – por parte da mulher ou homem sábio desacelera ainda mais o rumor, desidratando-o, enfraquecendo-o, uma vez que ele se nutriria precisamente da falta de discernimento, de uma compreensão obscura do mundo e das coisas do mundo, de descompromisso com a verdade e mesmo de má-fé. Pronto: “os rumores param no sábio. Ele/a não irá participar da corrente de transmissão do rumor, ou irá transformá-lo e desnudá-lo em sua falsidade, ou em sua inconsequência ou irrelevância.
A tradição conta que, uma vez, o Buda fez um elefante furioso interromper seu avanço e intenção destruidora (o Buda estava em seu caminho) permanecendo absolutamente imóvel, se não por um simples “mudra”, uma posição de mãos montada sutilmente, um gesto. Pode ser que a história tenha a intenção de mostrar o Buda como alguém poderoso, capaz de estender sua influência de modo perfeito, instantâneo, sobre circunstâncias e seres; ou pode ser que essa narrativa simbolize a verdade budista, a verdade da insubstancialidade e vacuidade de todas as coisas: em última instância, não havia ali alguém ou algo a ser atacado, nem mesmo um atacante, e nem sequer uma razão para o ataque. Nenhuma “solidez substancial” em nada.
Não sei. Mas sei que o homem ou mulher sábio que para os rumores, para também o elefante da ignorância. Nas artes marciais, e em especial no Aikidô, trabalha-se com a ideia de que o artista marcial que para um agressor, imobiliza-o e impede, susta o prosseguimento da agressão, está preservando inclusive o próprio agressor de se tornar um agressor. Na perspectiva budista do “guerreiro pacífico”, o artista marcial que frustra o agressor em suas intenções é movido por compaixão. Os estilhaços da bomba da agressão, não é exagero dizer, feririam muita gente: indivíduos, comunidade, nações...
Bem: só que rumores, fake news, boatos, fofocas, continuarão a existir, é forçoso reconhecer. A ignorância se organiza em legião, e os sábios/as contam-se nos dedos de uma mão. Iremos perder a guerra? Sim. Mas façamos a nossa parte e estejamos atentos e fortes – tudo conta, até mesmo um firme gesto de “pare” com a mão espalmada. Um gesto que represente e traga consigo, nas palavras de José Martí, “as armas do discernimento”.